linhas precisas
ramos tortuosos
luz e sombra
por Ana Souto de Matos
linhas precisas
ramos tortuosos
luz e sombra
«Tomei a decisão de te amar a vida inteira. Uma certeza quase inabalável que encerra todas as janelas para que não entre luz ou pó, brisa ou chuva que desvaneça ou arranque as imagens que se formaram raiz.
Sim, tomei essa decisão. Não foi de agora. A minha alma escolheu-te há muito tempo, um tempo quase eternizado, que persiste num Inverno gélido demasiado longo ou num Inferno tão insuportável de ardente. Não sei qual a imagem mais expressiva, contudo permanece verdade dos dias.
Tomei a decisão de te amar a vida inteira. Confrontam-me: ‘assim, estarás sempre só’, como se essa sensação de solidão fosse em si e por si algo extraordinariamente estranho, incompreensível, infeliz. Lamento informar: ‘não é!’. Gosto desta solidão, comigo e com a imagem que guardei de ti. Nesse espaço, a nossa história é imperfeita como devem ser todas as histórias, mas intensa e completa como devem ser todos os sentimentos partilhados. Algumas vezes sol radiante, outras o mais breu de escuridão.
Tomei a decisão de te amar a vida inteira. Nessa decisão, uma outra! a de não gastar e desgastar os meus sentimentos numa busca incessante de um qualquer alguém que apenas preencha vagamente os sentidos, sobretudo aqueles mais resguardados cá-dentro.
Tomei a decisão de te amar a vida inteira. De te querer no mais recôndito do meu cérebro, naquele confim entre o sonho e o pesadelo em que começam e terminam as noites, os dias e o que fica entre o antes e o depois do arrazoado quotidiano da vida. De te resguardar no mais precioso que há em mim que é o ‘aquilo’ que não se sabe definir e que, simplesmente, É! Existe! Está! tudo formatos do mesmo sentido e com o mesmo significado.
Tomei a decisão de te amar a vida inteira e, a intensidade dos sentimentos revolve-se e revolta-se num plasma cá-dentro e, é esse ardor que te alimenta em mim.
Sim, tomei a decisão de te amar a vida inteira!»
Texto: ASM em 'qualquer-coisa-de-quê!
Foto: ASM
Noutros dias …noutros dias… saberia o que te dizer. Saberia, como sempre soube, falar-te de mim ou dos sonhos que preenchem espaços ... ou de simples devaneios que esvoaçam por aí ou de meras ideias sobre o mundo ou, ainda, das gentes que o povoam. Noutros dias,saberia dizer-te de tudo um pouco, saberia afirmar-te nada de muito…trautear sobre as músicas que me alegram, projectar as imagens que capto com a objectiva do meu olhar, palrar sobre as filosofias – ‘baratas’ ou acertadas - que por aí grassam. Saberia brincar sobre as coisas e as pessoas, trocar contigo pormenores da vida e teria sempre tantas palavras… Todas as palavras! Noutros dias…saberia… Nestes dias…Agora!… Agora, já não sei… Já não sei se te posso dizer, tudo aquilo que te queria dizer, que te quero dizer! E que te digo… em tom de solilóquio, em jeito de toada ou trinado que canto para mim própria acalmando o meu ímpeto em desejar afirmar-te tanta coisa ao ouvido… e, ao ouvido, queria dizer-te…queria dizer-te baixinho, tão baixinho, quase um sussurro…apenas num sopro que só tu poderias e conseguirias ouvir… Queria dizer-te que não sabia! Que não sabia que iria sentir assim… Assim!… tão simples mas tão cheio. Que não sabia que iria albergar uma saudade assim… Assim!… tão grande e tão intensa que… que, o silêncio dói… assim, cá dentro, tão fundo. Que não sabia que iria pensar assim… Assim!… em nada mais, nestes dias, que não apenas e só em ti. Que não sabia que o teu abraço seria assim… Assim!… tão fundamental , tão vital, que me alvoroça recordá-lo. Que não sabia que iria ser assim… Assim!… o sentido da ausência do teu aconchego… Assim!… agora que senti o teu peito no meu rosto, como se fora esse! desde sempre, o sítio natural para o pousar. Queria dizer-te que não sabia que o teu toque seria assim… Assim!… mais do que mera perturbação e que, o teu acalento seria assim… assim, mais do que simples ardor. Queria dizer-te que não sabia que o estar perto de ti, seria querer-te… junto de mim, dentro de mim, dentro de ti, dentro de nós. Não sabia… Agora Sei!
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(historietas avulsas d’um livro inacabado)
Foto e texto: ASM
Sinto-me febril.
Reconheço bem esse estado, não propriamente rotineiro mas suficientemente habitual para o topar de ginjeira e lhe perceber as manhas.
Febril de temperatura, que me deixa a pele inusitadamente fresca embora eu lhe (pres)sinta arrepios, assanhada em picos de poros e pelos.
Febril de ideias que me sacolejam a mente, a perturbam ao limite da sanidade e a estimulam em córregos fluentes. Ideias que, soltas, correm pelos imaginários regatos de pensamentos, quase-rios, deixando-me as veias a arder com a sua revolta agitação.
Há dias em que pensar me cansa, assim como sentir me cansa, também. Enfim, é a própria vida que me cansa e desgasta. Cansa-me a vida e cansa-me esta febre… uma febre de sentidos intensos e fartos e de enrodilhados vazios, que me deixam em perplexidade de não saber se estou completamente cheia de nada ou completamente oca de tudo…
Estou febril.
Sei isso!Muitos refugiam-se na Igreja para encontrar a serenidade do seu Deus. Não contesto. Cada um tem a sua forma de se chegar perto!
Há muito que o meu templo de Paz é a Natureza, simultaneamente, espaço e divindade, assumindo género feminino na acepção, lugar amplo -sem fronteiras de janelas, teto ou chão- extensão profusa de vida.
Sou uma privilegiada, não preciso de calcorrear grandes caminhos para encontrar dessa paz que só a Natureza-Mãe me sabe conferir.
Basta-me –quase ao lado dos quotidianos- prosseguir ao encontro da serra, com a sua floresta e rios. Então, aí, longe por algumas horas de qualquer assomo de vida humana, calcorreando caminhos, veredas, atalhos e trilhos quase indecifráveis, encontro-me com o mais telúrico, criando lugar para a reflexão, para o sentido mais despojado, para a compreensão mais simples do mundo.
Posso, então, absorver do que me envolve e criar dentro de mim, energia para algum entendimento da minha própria natureza, quiçá, para algum entendimento da própria Humanidade.
Depois, imbuída do azul e verde, apanágio dos regatos e das árvores, do orvalho e da clorofila, regresso -por fim- aos circuitos de todos os dias com mais de mim, porventura, um pouco renovada, para então -melhorada na minha própria versão- me partilhar com os que me rodeiam .
FOTO: ASM #SerraLousã
«Ontem à noite, da janela observei a esquina do meu quarteirão. Um redemoinho de luz formado pela água da chuva em dança voluptuosa.
Os movimentos giratórios criavam imagens sobre a calçada e o
asfalto, sob a luz branca e crua dos candeeiros públicos.
Fixando os olhos com maior precisão, entendi que os seres
formados pelo vento das copiosas gotas de água, compactados nos feixes de luz
nua e branca, libertavam sons que tanto podiam ser de êxtase e comunhão quanto
de sofrimento e dor. Uns, esganiçavam-se em cânticos, outros numa espécie de
urros ou gemidos, num qualquer linguajar incompreensível.
Da janela, não me conseguia aperceber se tratavam de seres
assexuados ou de género bem definido.
Do esforço, os olhos latejavam de ardor com o esforço de
captação da imagem e, simultaneamente, de compreensão do conteúdo.
As espirais criavam histórias entre si, histórias de
envolvimento e lutas; composições de beleza e fealdade; cenários de intensidade
e marasmo.
Ali, à minha frente, desfilavam os meus temores e os meus
sonhos numa dança de sensualidade e de ousadia; de regressão e medo; de
catarse. Passos à frente, passos atrás, o vento a forçar-lhes as ancas
inexistentes, os braços idealizados, as cabeças de corpos meramente imaginados,
rodopiando e forçando os feixes de luz...
queria ser para ti um lago de águas doces, serenas em que tranquilizasses o teu espírito ao invés de um mar tumultuoso que embravece o teu cerne...um mar quase mau, daquele que afoga os pescadores!
Borrifo as Palavras com gotas frescas de chuva em tentativa - vã? - de lhes conferir significados!!!
Tu, naquela imagem recorrente de homem caminhando sobre um fio de luz quase imperceptível sobre o imenso breu logo abaixo, dos lados, em cima, em todo o espaço...