quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Morri um dia destes...

 


Morri um dia destes

Ninguém se apercebeu que morri um destes dias.

Ou melhor:
uma parte de mim morreu.

d e f i n i t i v a m e n t e!

E, do buraco negro que de repente surgiu, nada emana para além da tristeza de ter perdido esse pedaço, naco, porção de mim que deixou de existir — neurónios, sentimentos, sei lá eu o quê!

Continuo a sorrir.

Como se sorrir fosse um lenitivo.

Uma protecção.

Uma máscara.

Talvez um trejeito parvo de quem já se habituou a este formato.

Um subterfúgio.

Uma forma de sobrevivência.

Ou uma mera tentativa de continuar a dar e a expressar o melhor de mim aos outros — ou, tão somente, o que resta!

Afinal, tem sido este o meu lema de vida: sorrir perante a adversidade e transformar em luz aquilo que me causou o fanico.

Só que, desta vez, morri!

Morri um pouco. Não vou dramatizar até ao limite.

Morri um dia destes.

E ninguém se apercebeu!

E não, não renasci como a Fénix.

Apenas continuei.

Caminhando.

A sorrir.

Olham-me o rosto, vêem o sorriso e eu crio uma manobra de diversão para que não compreendam o olhar.

Porque é no olhar que tudo se denuncia.

A tristeza.

A decepção.

A  D E C E P Ç Ã O.

O vazio.

E, ali, onde antes havia brilho, ficou qualquer coisa que não sei nomear.

Talvez seja essa a parte mais estranha de morrer um pouco:

continuar a sorrir enquanto os olhos aprendem a esconder o que já não conseguem iluminar.

Não se pode ter brilho no olhar se se morreu um pouco, pois não?


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Autoria e Agradecimento

Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.

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