Morri um dia destes
Ninguém se apercebeu que morri um destes dias.
Ou melhor:
uma parte de mim morreu.
d e f i n i t i v a m e n t e!
E, do buraco negro que de repente surgiu, nada emana para além da tristeza de ter perdido esse pedaço, naco, porção de mim que deixou de existir — neurónios, sentimentos, sei lá eu o quê!
Continuo a sorrir.
Como se sorrir fosse um lenitivo.
Uma protecção.
Uma máscara.
Talvez um trejeito parvo de quem já se habituou a este formato.
Um subterfúgio.
Uma forma de sobrevivência.
Ou uma mera tentativa de continuar a dar e a expressar o melhor de mim aos outros — ou, tão somente, o que resta!
Afinal, tem sido este o meu lema de vida: sorrir perante a adversidade e transformar em luz aquilo que me causou o fanico.
Só que, desta vez, morri!
Morri um pouco. Não vou dramatizar até ao limite.
Morri um dia destes.
E ninguém se apercebeu!
E não, não renasci como a Fénix.
Apenas continuei.
Caminhando.
A sorrir.
Olham-me o rosto, vêem o sorriso e eu crio uma manobra de diversão para que não compreendam o olhar.
Porque é no olhar que tudo se denuncia.
A tristeza.
A decepção.
A D E C E P Ç Ã O.
O vazio.
E, ali, onde antes havia brilho, ficou qualquer coisa que não sei nomear.
Talvez seja essa a parte mais estranha de morrer um pouco:
continuar a sorrir enquanto os olhos aprendem a esconder o que já não conseguem iluminar.
Não se pode ter brilho no olhar se se morreu um pouco, pois não?

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