terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Olhos de pássaro...

Três semanas após, percorro de novo o meu rio…numa extensão maior, da nascente à foz, contornando o seu trajecto sinuoso, montanha abaixo, seguindo-o agreste ou lânguido, represado ou livre até sedutoramente se enlear no Tejo que o acolhe ávido…

É diferente desta feita… o desafio foi lançado assim num rompante e, mesmo sem conhecimento de todo e qualquer detalhe, aceite num ápice … contrariando o jeito habitual de agir, excessivamente controlado, disciplinado, recatado até.


Desta vez é efectivamente diferente… não estou só!!! como quase sempre ocorre na sucessão de passeios em que sou 'apenas-eu-e-a-natureza' numa constante busca e compreensão do meu cerne.Quer seja por não estar só, quer seja por a paisagem envolvente nem sempre se apresentar no seu esplendor, o certo é que acabo por me distrair e apenas me concentrar nas pessoas e na sua própria natureza, tarefa indubitavelmente mais exigente. As pessoas são quais caleidoscópios nas suas múltiplas formas de ser e de estar, de se apresentarem e de se mostrarem aos outros, num baloiçar que, naturalmente, adaptam (ou jogam?) em consonância com cada ambiente. A genuinidade é geralmente resguardada, sabe-se lá bem o porquê…. E resguardado o âmago, o “ser” de cada um, o que lhe confere a sua individualidade, o que o torna único perante os demais. Depois, não interessa ser-se genuíno e verdadeiro, as pessoas controem personagens, fachadas, máscaras quer seja por medo, por defesa, por fanfarronice ou simplesmente por falta de conteúdo… o mimetismo prolifera, o mostrar-se, o parecer-se mais que….

Por isso estar atenta à natureza das pessoas revelou-se empreendimento mais árduo...

Observar como estas se moldam às circunstâncias, como as vivem, como as aproveitam, o que trazem, o que deixam ficar, o que levam, o que sobra!
Distraio-me de mim, com os outros! 

É engraçado tentar perceber os círculos de atracção ou de poder… as danças subtis e menos óbvias dos personagens que compõem a história… como a jovem que mesmo com o namorado a seu lado (convenhamos que algo sensaborão, diria até desenxabido) não se escusa a fazer charme a forças porventura superiores ou o borboletar de homens mais velhos ou com moral assaz mais duvidosa em torno das flores mais atraentes ou ainda a picardia dos mais aventureiros ou as gabarolices de outros tantos pelas façanhas e destrezas do todo-o-terreno.

Torna-se interessante este meu olhar. Porventura, os olhares que recaem sobre mim terão contornos idênticos... sei que estou transparente... sei que sou transparente... tal como a água cristalina que observo de um Zêzere ainda puro...
mas não quero saber...

Há momentos que registo e me enternecem… aprecio casais que não escondem o que sentem perante os outros.


Com o sinuoso percurso, entre solavancos, curvas e reveses, o corpo apesar de achocalhado deixa espaço para a mente se ocupar com quem a rodeia. 


O Zêzere vislumbra-se aqui e acolá a dar mote ao passeio e recordando-me permanentemente desta minha relação íntima e cúmplice com o mundo exterior.

Sentirei pena daqueles que se levantarão no dia seguinte, cansados e doridos destas suas incursões pelas províncias, levando agarrada aos pneus a lama das terras que percorreram para gáudio dos vizinhos gulosos de notícias frescas. Terei pena daqueles que terão de percorrer trajectos infindáveis entre betão e alcatrão esburacado, entre tráfego intenso de ‘pára-arranca’.

Sentirão eles, porventura, pena de nós -dos que cá ficam e vivem- que apesar dos apenas cinco minutos de percurso entre a casa e o trabalho, se debatem diariamente com os “marasmos” e a lassidão do viver no interior?

Questão eterna esta, dualidade presente, entre o ser-se do campo e o ser-se da cidade, numa articulação permanentemente desencontrada e em que os que cá estão mostram o desgaste da luta quotidiana.

Olho em torno de mim. A Primavera ainda não chegou mas pressinto-a nos rebentos das árvores, ainda tenros e frágeis e nas flores silvestres que pontilham os prados… num recanto, a primeira borboleta do ano, alva de cor, foge de mim…

Sinto que as pessoas em meu redor estão ávidas de calor, de luz, de ar, de espaço amplo, de descontracção, de se exibirem até…
Observo-as no seu rodopiar ao sol… nos seus rituais sociais.
Nas suas investidas e evasivas, tento vislumbrar mais para além do que mostram… às vezes, consigo vislumbrar várias pessoas numa só…

Comparo-as à natureza… crio imagens e paralelismos… invento histórias e enredo-me em argumentos… sorrio para dentro e rio-me com os meus próprios disparates.
Sinto-me a flutuar observando a paisagem e quem me rodeia com olhos de pássaro…
Apesar dos meus pensamentos soltos...

não me esqueço que desta vez não estou só, existe uma 'equipa' ...
e é muito boa essa sensação porque, em conjunto...
percorremos as margens do rio… resvalamos… voltamos a ‘navegar’… escorregamos… trepamos… fotografamos… enchemo-nos de lama… desafiamos o equilíbrio… cantarolamos… atolamos… rimos… continuamos a fotografar… paramos para ver –ou não ver- o que se passa… rimos mais… derrapamos… alcançamos chão firme.
tudo recomeça uma e outra vez...
Os dois dias passam e de tanto olhar os outros… esqueço-me de olhar para mim própria…
Às vezes sinto -por breve instantes apenas- que faço parte de algo maior. É, no entanto, uma sensação só minha… sei que para os demais é apenas um momento. Para mim, será o marco, o fim de uma etapa de vida… o reinventar-me e renascer para um novo ciclo…
Baixo as defesas…

foge-me saltitante a disciplina a que me imponho habitualmente… absorvo o sol no rosto e deixo-o entrar para dentro…

aceito o entusiasmo dos outros, partilho-o e sinto-o como meu, porém, sem qualquer expectativa ou pretensão de mais ou de diferente. Pelo menos por agora, basta-me o momento para me encher os sentidos!

Assumo o que sou! Fico alegre! E... sinto-me feliz!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O valor de uma data! ou será... o valor de uma pessoa para além de uma mera data?



Não sou uma pessoa que valorize os acontecimentos pelas datas, exceptuando os aniversários de nascimento em que a aparente trivialidade do“feliz aniversário” se assume como apenas uma forma de dizer aos amigos ou à família “lembrei-me de ti!” ou “gosto de ti!” por outras palavras.

Para além disto, as datas passam-me todas habitualmente ao lado.
Talvez a maior ilustração seja este exemplo. A minha avó Glória era para mim uma amiga por inteiro. Com 92 anos e ainda arrancava dela sorrisos de cumplicidade e rasgos de total amor e compreensão. Tudo o que eu fazia, era perfeito a seus olhos. Faleceu, sorrindo, feliz por estar à minha beira (dava-lhe eu o jantar)... não me recordo em que dia, às vezes nem sequer o mês. É sempre a minha mãe que insiste na data. A minha avó para mim está viva e surge-me nos momentos mais inesperados... quando passo na auto-estrada junto a Cacia, ali para os lados de Albergaria-a-Velha e o terrível odor da celulose me invade as narinas de rompante. Já se riram várias vezes de mim: - Então o mau cheiro faz-te lembrar a tua avó? questionam. A verdade é que a minha avó sempre viveu numa terra que soube sobreviver com esse odor, desde que nos finais dos anos cinquenta a fábrica se instalou nas cercanias. Quando o vento estava de feição (o que neste caso soa até a contrasenso), o cheiro invadia os campos, as casas, as pessoas. Por isso, aquele cheiro recorda-me a terra da minha avó, o quintal da minha avó, a casa da minha avó e a minha própria avó. E quando passo na A1 com vento de feição, lacrimejo sempre um pouco na recordação do seu amor e ela surge-me com aquele olhar simultaneamente trocista e sobranceiro que a caracterizava e que por vezes pressinto em mim. Outras vezes vejo-a no jantar de Natal, assim à testeira da mesa a fazer as honras da casa e mudas considerações sobre todos e olho-a percebendo, exactamente, o que ela está a pensar...
é mais ou menos desta maneira que eu me recordo das pessoas que amei, que amo e que, desse modo, permanecem vivas em mim. O meu amor mantém-nas vivas.
Tenho uma agenda onde aponto os principais compromissos mas é frequente eu perder-me no meio da semana ou do mês e não saber exactamente “a quantas ando!” –O quê já estamos no fim do mês? ou –Julguei que era na próxima semana! são frases quase habituais em mim. Às vezes, a minha mãe diz-me: Olha foi neste dia que aconteceu isto ou aquilo e eu, perplexa, penso –É pá, já passou tanto tempo!; ou então –Foi nesta altura, mesmo? Tens a certeza, não estás enganada? Para mim os acontecimentos valem por si e apenas os associo ao facto de me terem marcado por algo de bom ou por algo de mau, por estar calor nesse dia ou então um frio gélido, pela partilha de momentos ou situações com alguém ou ainda porque os associo a um sabor, a um objecto, a um cheiro, a um sentido, a uma paisagem, a um sentimento determinado. É mais ou menos assim que assinalo as efemérides... sem data marcada, mas com lugar cativo pelo seu simbolismo. Todo este rodopiar em torno do assunto assim como que para amornar os sentidos e me preparar para o que desejo efectivamente expressar.
Enfim, já deu para perceber que não sou uma mulher que me recorde de datas...
...porém, esta data! Este dia! insinua-se desde há um ano em mim, assim como numa marcação cerrada do compasso de tempo, numa contagem descrescente ou crescente consoante a perspectiva.
Há um ano que o Francisco vive em mim de uma outra forma...
quando lhe recordo a voz profunda e pausada a falar-me das ideias e dos projectos com seguras e enleadas doses de lucidez e marginalidade...
quando me recordo do seu ar de menino travesso e irrequieto apesar da compostura aparente, a deixar-me perceber no seu olhar a promessa de mil sonhos e aventuras...
quando relembro o seu sorriso guloso perante os quase pecaminosos manjares da minha mãe... ou o seu ar de quem sabe-sempre-tudo-sobre-tudo nas opiniões que formulava e que por vezes tão irritada me deixavam porventura pela minha própria ignorância perante tão extrema sapiência. De quando em vez, afirmava até com aquele ar de doutrinal convicção que era um ser perfeito só para me arreliar e ver torcer e contorcer perante a enormidade de tal pretensão... e ria-se, ria-se.

Outras vezes não se ria... ficava com um ar sisudo de quem cria em torno de si uma auréloa de protecção do tipo “não-me-toquem-não-me-falem-e-deixem-me-em-paz”. Mas mesmo quando em ebulição, em transe, em delírio ou em simples apatia –estados habituais e a ele naturalmente intrínsecos-, o olhar mantinha-se inalterado na sua forma de ver e sentir as coisas… um olhar de pássaro, cheio de poesia, voando sobre a realidade dos homens.Passou um ano... às vezes parece que não passou tempo quase nenhum e outras vezes parece que de permeio se passaram múltiplas vidas...
O Francisco marcava todos os que consigo privavam e por isso mesmo marcou para sempre muitas coisas, muitos momentos, muitas pessoas.
Marcou uma casa, uma terra, uma história. E, de uma certa forma passou a ser ele próprio parte da história daquela casa e daquela terra.
Marcou pessoas de outras paragens e que por todo o mundo se recordam de si como marcos nas suas vidas.
Marcou colegas, marcou amigos que se recordam da sua escrita, do seu conhecimento profundo sobre todas as coisas e da sua opinião vincada.
Marcou-me a mim e dessa forma vive no sorriso que lhe recordo, no som da voz, nos ideais que partilhámos. A ele lhe devo ter aprendido a deixar crescer o mundo em mim, aquele que existe na minha cabeça, no meu pensamento, no meu coração... ou a moldar a forma do meu olhar sobre as pessoas e os seus quotidianos... ou ainda a apercerber-me do conspirar da borboleta no seu breve toque na flor, porque simplesmente “me apetece, caramba!”, ouço-lhe a voz a afirmar.
Será certo que as pessoas dirão o que dizem habitualmente: -faz um ano que morreu ou que partiu ou que se foi ou que Deus o levou, coitadinho! que estava tão doente e em tão grande sofrimento! Se calhar até lhe mandarão rezar missas pela alma, num acto e ideologia que com a vida aprendeu a abominar. Mas para mim perfaz um ano que não ouço a sua voz, que não sinto o seu incentivo aos meus sonhos mais amplos, aqueles que são mais-além, que não vejo o seu olhar a percorrer o mundo num ápice, que não tenho os seus elogios iguaizinhos aos da minha avó para quem eu era perfeita ou a proferir, convicto dessa verdade, que era eu o seu anjo na terra, que não embarco nas suas historietas do Camilo, da avó-baronesa, das japoneiras, das tertúlias ou das terras da Ribeira.
Porque quando releio as suas palavras é como se o Francisco estivesse mesmo aqui com toda a sua venerável confiança e com histórias para contar e aventuras para viver quer fossem no meio de uma picada de Cabo Verde ou do Brasil quer mesmo outras tantas vezes vividas no aconchegante sofá da sala de estar, ou não fosse ele Homem do mundo de vida intranquila e desassossegada que mesmo fincando raízes no solo voga sonhador em torno do seu jeito meio etéreo de ser.É estranho, mas sinto e não sinto saudade!
Tenho um amigo –mais seu até- que às vezes me telefona e diz: -Olha, quero que saibas que agora, neste momento, estou a beber um copo em honra do Francisco! E como eu o entendo… é mesmo assim que tornamos eternas as pessoas… a lembrar-nos delas das formas mais corriqueiras, mais comezinhas do dia-a-dia… - Lembrei-me de ti e bebo um copo em tua honra e em homenagem à tua amizade e àquilo que representastes e representas para mim.
Hoje não relembro os 365 dias que o Francisco não esteve aqui, recordo a sua marca boa em mim e nas pessoas. Assumidamente eterna!

E porque “me apetece, caramba!” partilho convosco que são meus amigos e muitos de vós que foram e são seus amigos também, uma dúzia dos milhares de textos que mais do que escritos tinha na sua cabeça a martelar o futuro livro das palavras ainda não redigidas. Certamente acharia piada a estas minhas divagações e afirmaria: -“como são deliciosas as tuas palavras”… ficando a saboreá-las por dentro, considerando o peso da sua verdade. Depois olhar-vos-ia a todos os que me lêem a falar de si e com um semblante a raiar entre o sério e o travesso lançaria um “bem-haja a todos”.

Fará tudo isto qualquer sentido?

Sei lá… decididamente não me apetece ser lúcida…
  • Sinais de Civilização
  • Os meus vizinhos já não acreditam em mim!
  • Raízes 2- a lenta construção das raízes
  • A propósito de brinquedos
  • Hoje a lua está cheia
  • Sobre tertúlias... variações à volta de filmes de western
  • Raízes 1
  • Da Catalunha ao Brasil, ementas originais
  • De quantos pelos se faz uma barba
  • História da minha ida ao futebol
  • Notas de uma fugaz passagem pela capital
  • Exorcismo para uma morte
  • Obrigado Eugénio!
  • (Aviso à navegação) Urinóis
  • Esquemas de saúde
  • Ao meu amigo Joaquim Jorge
  • Plenitude

domingo, 25 de janeiro de 2009

O perímetro da minha serra…







Para alcançar a profundidade e importância do detalhe, devemos de quando-em-quando saber distanciarmo-nos um pouco do nosso objecto de referência e de reverência, observando-o, de longe, no seu todo.
Foi o que fiz neste Sábado.
Distanciei-me das particularidades da minha serra, dos seus detalhes que aprendo a reconhecer e, às vezes, a conhecer até quase ao limite do que é e do que representa e, perdi-me, como tantas vezes faço, numa incursão solitária na ânsia de saber um pouco mais, de lhe entender o passado duro e o futuro mais incerto e árduo ainda. De compreender o conflito das pessoas em constante dúvida da razão do seu ser e do seu viver nestas terras que já ninguém quer. Gentes e terras em permanente questionamento se viverão, se existirão por mais uns quantos anos, por mais um que seja, até definitivamente desaparecerem sem que ninguém se aperceba porque é que simplesmente existiram… recordadas porventura, tão e somente, por terem feito parte de um mapa da interioridade deste país que é o nosso.

Procurei a minha serra, contornando-a por fora, medindo-lhe o perímetro com o meu olhar… não a perdendo de vista… tomando a jeito a sinuosidade do rio que lhe faz fronteira a sul…
Chovera a noite toda, deixando-me em sono sobressaltado na ideia de não poder cumprir o que determinara… Porém, amanheceu o dia, soalheiro quanto baste, não me permitindo deixar de viver o destino que previamente determinara.
Até ao Cabril, apenas cumpri os quilómetros de estrada, tentando espaventar o sono da noite mal-dormida… o olhar ainda turvo em função mínima de se manter atento à estrada.
Chego ainda cedo à grande represa feita pelos homens que estanca o rio e o divide entre concelhos e distritos. A perplexa constatação do baixo nível da água a contrariar os dilúvios das últimas semanas e a deixar as margens descarnadas e sem beleza. Prefiro fixar o meu olhar no outro lado, onde o Zêzere ainda corre lá bem abaixo, lá bem ao fundo, saltitando entre margens próximas.
Subo uma vez mais a Nossa Senhora da Confiança, local privilegiado para um olhar demorado sobre a albufeira. Tudo o que a minha vista alcança abrange a serra. Esta, espraia-se em vales e ergue-se em pequenos e modelados píncaros… num sobe e desce a fazer-me imaginar a espinha dorsal de algum colosso pré-histórico….
O vento gélido espanta-me o olhar e resguardo-me junto à Capela, observando a fé dos homens simples transformada em ermida de cimo de monte.


Passo, sem parar, pelos medronheiros que, em outros tempos mais estivais, me atiçaram os sentidos com o seu aroma, a sua cor, o seu paladar intenso. Agora, os galhos hibernam ainda e resguardam-se do tempo frio. Apenas o cabrito que saltita afoito na erva apetitosa me solta vã tentativa de comunicação.


Pedrógão Pequeno é logo ali à frente. Encantam-me as suas ruas ladeadas com o casario bem proporcionado, uma igreja e um adro preservados, um conjunto de casas solarengas abandonadas mas que me provocam evocações às histórias do romantismo clássico… ando por aqui e por ali, colho imagens como se colhesse um ramo de silvestres flores e aproveito o dia para me encher de sol e de ânimo e da alma (quiçá meio-assombrada!) destas paragens.

O caminho calcetado e recortado pelos muretes reconstruídos entre a vila e a ponte filipina surpreendem-me mas não me deixam saudades… no ziguezaguear da estradita que conduz até à margem do rio, deparo-me com derrocada de pedras e árvore que me obrigam à aventura de recuar com a viatura às avessas nesses contornos de curvas e contracurvas e a frustração de não alcançar a água e a velha ponte.
Depois da perícia, regresso à proveniência.

Não sei para onde siga… lanço convite a amigos que moram por estas bandas, para partilhar o almoço frugal que trouxe comigo. Não será desta, porém.

Ao cimo da terra opto por seguir a estrada que o meu mapa me indica como contornando o rio. Meto na cabeça que comerei a sanduíche olhando o rio de perto. Por isso, viro para o lado esquerdo e sigo.

Não por mais de dois ou três quilómetros… um olival chama por mim… olho para o lado e sinto-o a seduzir-me com o sol a resplandecer nas folhas espetadas, o som de um riacho a fluir por ali… descubro cogumelos e árvores com bagos de que não sei o nome.

Passam carros que buzinam… sorrio com a ideia das pessoas estranharem alguém andar por ali, a pé, empunhando uma máquina e fotografando algo que elas próprias se desabituaram de olhar e de ver.
Sigo caminho, apesar da hora de almoço já ter passado há algum tempo, insisto no propósito da água ao fundo da minha paisagem.
Em Madeirã, surpreendo-me com o cuidado e esmero dos espaços públicos da povoação, com a sua dimensão, apesar de perdida assim no meio do centro do país.

Falo com as pessoas da terra “como chego ao rio?” e estas solícitas a quererem levar-me lá “o seu carro passa, menina, mas se está com medo eu levo-a lá na pick-up da junta”, “vá à confiança que ele é o presidente”, dizem as velhotas sentadas à lareira no café enquanto argumentam que gostam muito de Mozart e de Beethoven por conta de um concerto de uma sinfónica que toca o My Way de Sinatra ou de Aznavour , não sei bem, num programa de televisão… agradeço as informações, afirmo que não tenho medo se me afiançam que o percurso está em boas condições e avanço no propósito das águas do rio e do almoço que tarda.
A confiança releva-se acertada e consigo uma ida-permanência-e-vinda sem sobressaltos que não o contorno sinuoso e o brilho do rio nos meus olhos. Fico feliz com esta imagem que perdura até alcançar a seguinte que me extasia…

A estrada contorna o monte e eu perscruto no meu horizonte, em todo o seu comprimento e volume, o esplendor da minha serra no seu todo. Não fora a névoa e eu alcançaria ainda mais longe que o meu próprio olhar.

São bonitas de se ver estas terras que formam o concelho de Oleiros, com socalcos da erosão dos ventos e arbustos rasteiros de tojo e urze (ou já resultado também da erosão causada por desvastes cíclicos de incêndios?). Um pouco por todo o lado, na crista dos montes, os moinhos de vento do século vinte e um desafiam as alturas e recolhem em si a energia que flui tão generosamente com o vento. Alcanço o Alto do Cavalo. Seguramente é a primeira vez que passo por aqui e estranho que assim seja. No fim do caminho ainda a indecisão de qual o percurso… à beira da estrada um rebanho de ovelhas pasta calmamente sob o último raio de sol da tarde.

Opto por ir até à vila sede-de-concelho que nunca visitei… É um burgo tranquilo, que não tem ao primeiro olhar grandes pontos que me atraiam, que não essa simplicidade de terra de interior que vive com o que tem e como pode.

A igreja chama por mim e encontro um templo de exterior simples mas acolhedor e com um interior fantástico e perfeitamente recuperado. Pedindo desculpa pelo quase ensurdecedor som do flash da minha máquina a uma senhora recolhida na sua oração, acabo por conhecer a história recente da igreja… “sabe, menina (sorrio mais e uma vez por este ‘menina’ que por vezes me concedem e que docemente me toca no íntimo cada vez que o proferem), a igreja ardeu em 2003” afirma Dona Aura num tom sussurrado para não importunar o Altíssimo. E continua “lá fora, haviam três frentes de incêndios que ameaçavam a vila de Oleiros… aqueles quintais, ali à frente, arderam todos… a árvore centenária que lá está fora, não sei se viu (afirmei-lhe que sim), a árvore com o calor incendiou-se sozinha e pegou fogo ao altar”. Continuo, afirmando que pensara que tinha sido obra de vândalos e lá vou ouvindo a história em tom de segredo e cumplicidade “… o senhor padre ficou muito afectado… mas agora o altar foi todo recuperado… 60.000 contos, menina. Em contos! Não em euros.” “Foi uma desgraça para a igreja e foi uma desgraça lá fora para o povo. Ardeu tudo! Só não ardemos nós!”…

Admiro cuidadosamente o templo e fico feliz por o registar na minha memória. Lá fora, o sino badala as 16 horas em quatro pancadas certeiras em contraposição com os ponteiros que a cada lado da torre ora assinalam as dezasseis e dez ora as dezasseis e quinze… realmente o tempo é sempre algo muito relativo!

Neste deambular sem hora nem caminho marcados, duvido mais uma vez de qual o trajecto a seguir… no café no centro da vila, o dono -senhor que de tão baixinho me faz sentir quase uma figura de Adamastor- admira-se de eu procurar locais para visitar “por aqui não há nada que se veja. Se já foi à igreja, então já viu tudo!”. Não tendo como retrucar ou contrapor ouso perguntar já sabendo de antemão a resposta “E então, para seguir para a Pampilhosa da Serra, acha que vou por Janeiro de Baixo ou por Álvaro?”… “Jesus!!! por Janeiro de Baixo???!!!”.
Bem, perante tanta veemência sigo mesmo por Álvaro, não tanto por não considerar o outro trajecto mais aliciante mas por conta do pouco dia e da muita vontade ainda de ver o rio com luz.

O dia ainda me reserva a povoação de Álvaro. Não me arrependo… a aldeia prolonga-se em espinha numa crista semi-curvada do monte… começa num alto, alonga-se em linha arrendonda para se erguer de novo na outra ponta… é uma povoação encantadora, com casas recuperadas ora pintadas de branco ora cobertas de xisto.
Saio junto ao parque de estacionamento para a contemplar neste fim de tarde… mais uma vez sou interpelada por uma senhora já de certa idade “isto é tão feio! Vai tirar fotos, menina?” e continua perante o meu assentimento “se eu fosse nova, abalava! Isto agora são só velhos! Não há nada!”. Ela a dizer que a aldeia é feia e eu a achá-la tão bonita. “Então e o nome da ribeira ali em baixo?” “Ah! O nome da Ribeira? Não sei!”. A viver toda a vida junto à ribeira sem lhe saber o nome e não fora eu perguntar e o João “deixe que eu pergunto ao João (e em tom de confidência) um ‘moço’ da minha geração que me arrastava a asa”, responder que era a Ribeira de Alvelos e tamanho enigma ficaria para desvendar mais tarde com recurso às novas tecnologias do Google, que põe cada canto do mundo no mapa mesmo que às vezes nem os próprios cantos saibam que existem e têm um nome. Deixo Álvaro com pena de não me poder perder por aqui. É quase noite, ainda contemplo o Zêzere aos pés do povoado.
Mais uma vez olho e sinto a minha serra que surge como altaneiro santuário num crepúsculo de contornos suaves…
Sigo caminho por estradas do concelho da Pampilhosa da Serra, um pouco já a sentir no coração e no pensamento o peso da solidão excessiva e guardo em mim o dia.
Aprendo a importância de olhar o ‘longe’ como forma de entendimento do ‘perto’.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Entre quem é !...

Quem é por bem, que entre!
Quem traz sorrisos, que entre!
Quem me quer bem, que entre!
A quem quero bem, que entre!
Quem quer dar, que entre!
Quem quer receber...

que entre, também!
Quem é! Que entre!
A porta está aberta…
Entre quem é…

Autoria e Agradecimento

Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.

Todos os direitos estão reservados.

São excepção as fotografias do Feto Real e do Cardo que foram cedidas pelo João Viola. As raras imagens captadas na Net com e sem identificação de autor, encontram-se devidamente referenciadas.