segunda-feira, 27 de abril de 2009

um homem da serra que partiu...

hoje morreu um homem bom.
completamente anónimo. sem significado para o resto mundo. um homem da serra. simples. humilde. que cumpriu os seus dias. sem devaneios. sem sonhos que não e apenas ultrapassar os dias, um-a-um. vivendo e acertando o tempo à medida do sol e da chuva. do vento. dos animais. dos ganhos e perdas da terra. os mais próximos choram a sua partida. o céu chora também. desperdiçam-se momentos, dias, semanas. desperdiçam-se ideias. desperdiçam-se sentimentos. para quê? todos têm o mesmo final. tudo acaba do mesmo modo.

sábado, 25 de abril de 2009

sexta-feira, 17 de abril de 2009

quase do nada...

quase do nada...

assim como
regato depois do degelo que
nasce e
simplesmente brota...

...as gotas formam-se uma-a-uma
(serão de água?
serão de mim?)

e quase do nada
já são ribeira,

quase do nada
já são rio...
num percurso lento
sinuoso e
intranquilo
até à foz...
(que as acolhe...
que me acolhe?)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

por vezes, até as palavras se esgotam...

se calhar
o que
eu
procuro
não é bem
a felicidade
NUNCA FOI
ou
então
se calhar
dou-lhe
um outro
NOME
ou
então
se calhar
é
uma outra
coisa QUALQUER

se calhar

É
uma outra

COISA QUALQUER

sábado, 11 de abril de 2009

Tempo de Páscoa...

Passo uns dias em Zamora…
afinal uma cidade quase-que-aqui-ao-lado, a uns escassos cento e tal quilómetros da fronteira…



A cidade fervilha com os festejos da Semana Santa… época pela qual anseiam os espanhóis de qualquer província e para o qual se preparam durante todo o ano…
Nestes sete ou oito dias, a cidade pára e vive em torno das festividades.


Mais do que a religiosidade dos actos é o simbolismo dado pelo povo que impera… este, vibra e participa em massa… anseia o bom tempo que permitirá, ou não, que todas as confrarias desfilem…



Os espanhóis de Zamora ataviam-se para a festa… porque apesar do espírito de penitência ou de reflexão da solenidade da Semana Santa, o momento é de festa… E a festa está presente em toda a parte… nos cafés e ‘panaderias’ que se mantêm abertos por toda a noite… nos cheiros adocicados das amêndoas artesanais confeccionadas ali nas barraquitas de rua… nas pessoas que percorrem vezes sem conta as zonas pedonais da Calle de Son Torquato, da Plaza Mayor ou da Catedral ou da Calle de Santa Clara, nos sons estridentes das cornetas e mais surdos e cadenciados dos tambores que nos fazem obrigatoriamente participar, mesmo que não assistamos aos cortejos e que nos entram dia e noite pela casa dentro -todo o tempo- trespassando janelas e paredes. A cidade não dorme nestes dias. E nós também não!

Mas, para além dos festejos da Semana Santa, Zamora é uma cidade encantadora e com um burgo antigo e monumental que percorremos a pé vezes sem conta.

A cidade não nos deixa esquecer a ligação estreita que tem com o nosso país… desde a Praça de Viriato (‘nobre lusitano’) à Fundação Dom Afonso Henriques que preserva no seu seio o simbolismo do Tratado aqui firmado há quase novecentos anos e ao qual é devido a nossa própria nacionalidade, passando pelo Arco de Dona Urraca num dos pontos da muralha do ‘Castillo’ até ao próprio rio, aqui Duero, mais adiante Douro… tudo nos recorda e liga ao nosso país em linha de raia, mesmo aqui ao lado.


As fachadas dos edifícios são cuidadas e passo o tempo de pescoço erguido observando os detalhes das sacadas que me encantam, procurando os ninhos das cegonhas que se instalam sem pudor em todo e qualquer beiral e telhado.



Para estes dias foram programadas dezanove procissões que trespassam o casco antigo da cidade percorrendo as suas ruas em todas as direcções. Os percursos são sempre delineados por ruas diferentes e, a partir de várias igrejas congregam-se e saem milhares de pessoas, na sua qualidade de fiéis (ou figurantes?!) de uma história contada, em cada cortejo, ao estilo de episódio… Recria-se a última semana da vida de Cristo, encadeando os principais momentos em cada procissão.

São inúmeras as Confrarias que participam nestas solenidades. Algumas permitem apenas a adesão de homens, outras só de mulheres e, as crianças mesmo as de mais tenra idade constituem já uma presença natural. É uma tradição que impera nas famílias pertencer a qualquer uma destas congregações, afirmam-me. São tradições profundamente arreigadas que se perdem na árvore genealógica de cada família… os bisavós e avós pertenciam a esta ou aquela confraria, legando esse costume aos seus filhos e netos… é possível encontrar várias gerações de confrades e confreiras participando em conjunto nas procissões. E estas, sucedem-se quase a um ritmo frenético… umas começam às vinte e três horas depois da ‘cena’ tardia que por estas paragens impera, terminando apenas três horas após… outras iniciam-se dentro da madrugada, lá pelas cinco da manhã… outras ocorrem a meio da manhã, outras ainda a meio ou no fim da tarde… a cadência é quase alucinante e, dia e noite, desfilam confrades aos milhares, deixando-me boquiaberta perante tanto povo crente.


Os trajes impressionam pela severidade e toque de secretismo e, apesar de me aludirem a um certo ar de Ku Klux Klan ou até –e teria certamente mais lógica- à época medieval da Inquisição, a verdade é que permitindo o anonimato de quem os enverga, apenas simbolizam a igualdade de todos os homens entre si e a sua igualdade perante Deus. Os bicos dos capotes que ocultam o rosto apontam ao céu, num significado de procura incessante da verticalidade, da comunhão total com o Altíssimo. Explicações dadas pelos naturais que com esta história nascem e crescem e que a têm entranhada nas suas vidas. Mas é extremamente estranha a sensação de podermos ser observados sem nos apercebermos de quem o faz e só conseguirmos descortinar os olhos de quem desfila. Estes, tornam-se incisivos e audazes, por vezes.

Qualquer local serve para momentos de introspecção e a par de actos mais pagãos que envolvem muitos e diversificados néctares, é possível encontrar quem reflicta sobre o significado da sua participação.

As procissões nocturnas são quase mágicas. Nalgumas impera o silêncio total e a luz das velas confere ao quadro uma dimensão quase feérica. É algo assustador, porém muito belo!


Os andores são uma constante nos cortejos. Enormes, sugerindo peso excessivo e porventura sobre-humano. Assim o imagino quando apenas vislumbro dúzias de pés calçados ou descalços sob a capa que encobre os corpos dos homens que os suportam. É uma verdadeira honra, transportar o andor, afirmam-me mais uma vez!

Todavia, ir a Zamora não teve como fundamento um simples passeio turístico.

Representou muito mais do que observar uma mera manifestação religiosa e popular, diferente e extraordinária, com contornos de espectáculo bem encenado. 

Representou uma reaproximação afectiva! Um aconchego a uma amiga de sempre, daquelas que fazem parte integrante de toda uma vida e que mesmo não estando, o são! 


Estar em Zamora representou um momento de reforçar laços lassos, soltos pela crueza do tempo e da vida e de relembrar que há sentimentos que são eternos.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

acreditem, que faz diferença!

apesar do meu olhar transparecer sempre uma determinada poesia e um certo filtro sobre as coisas e as pessoas, nunca
-nunca!-
me alheio à realidade dessas mesmas coisas ou pessoas...
e não! não fotografo a miséria ou a tristeza...
a indigência...
a pobreza...
o olhar triste de quem nada tem, ou de quem sente que nada é...

seria uma ousadia, uma violência, uma afronta àqueles que apenas sobrevivem na massa da cidade grande e que passam despercebidos a quem, simplesmente, se habituou a vê-los ali nos vãos das escadas, nos bancos dos jardins, nas arcadas dos ministérios...

incomoda-me!
magoa-me profundamente a miséria alheia!
toca no mais profundo de mim!
às vezes choro até por me sentir impotente
e a consciência fica em turbilhão.

não fotografo imagens de quem apenas sobrevive... de quem apesar de tudo tem coragem de sobreviver.

mas, quase a propósito, alguém me envia este filme que foca realidades de outras cidades grandes, tão maiores que esta em altura, em extensão e em pobreza!
e tudo é tão igual a Lisboa... tão igual, que poderia até ter sido aqui.

apesar da impotência para mudar o mundo,
há sempre um gesto que se pode fazer nem que seja apenas de vez em quando...
uma certa dose de esperança e de mudança que podemos impregnar nesse gesto...
podemos
-devemos!-
mudar o nosso olhar sobre as coisas.
e acreditem, que faz diferença!

domingo, 5 de abril de 2009

Afasto-me de Lisboa pelo caminho mais longo...

Lisboa…
Regresso a Lisboa sempre com vontade de ver e sentir a grande urbe de uma outra forma…
São sempre olhares renovados os meus, para esta cidade em que vivi em tempos idos…
Por vezes, sinto-me provinciana na cidade grande… outras, a cidade encaixa-se em mim como segunda pele…

Regresso sempre com saudades dos seus recantos, das suas cores, dos cheiros intensos -bons e maus odores que me arrepiam a pele, a mim, que tenho no olfacto um dos meus mais apurados sentidos-…
Saudades da luz intensa que se reflecte no rio em fim-de-tarde.
Saudades dos espaços abertos e novos e dos outros que se fecham em si próprios, connosco lá dentro.
Ao fim-de-semana, a cidade grande não me assusta tanto… gosto de a percorrer sem o bulício e o frenesim do trânsito e da vida sempre a correr que parece que já foi vivida mesmo antes de acontecer. A cidade despe-se de intensidade ao Sábado e ao Domingo e não abala o meu já adquirido jeito serrano. Porém, na cidade -mesmo mais pacata nestes dias- tudo acontece… é só procurar ou, simplesmente, estar atento…
Lisboa…
A luz no rio seduz-me… o sol a esconder-se atrás dos prédios ofusca-me e faz-me sorrir num breve pensamento de que, de repente, parece que estou do outro lado do rio Hudson observando Manhanttan… porém, as luzes do casino mudando de tonalidade não me fazem esquecer o nome da cidade…
A brisa é gélida mas encontro quem arranja artimanhas amorosas para se manter quente… Assumo! Sinto um pouco de inveja por esses jovens que, despreocupadamente, se enroscam em si próprios.

Encontro pássaros e encontro árvores…
diferentes dos pássaros da minha serra,
diferentes da flora da minha serra intensamente gulosa de verde… por agora, basta-me!

Há momentos que reservo para mim... sinto que esperei por eles e que os guardo e acarinho!

Sigo à descoberta de conhecimento… em todos os recantos Lisboa transpira cultura… e é só escolher o tipo de sabedoria de que nos queremos impregnar… realmente, por aqui só bastará ter tempo para ter acesso a um pouco de tudo… ciência ou arte, arquitectura ou música, festivais de rua ou cinema, literatura ou teatro…
Encanto-me com as experiências que já experimentei mais do que uma vez… sim parece que ‘já conheço tudo’ mas existem sempre novos olhares para quem tem o espírito em busca…
Indo ao encontro do centro, calcorreio as praças centrais e os bairros nas colinas mais afamadas e noctívagas.
Subo e desço o Chiado, vejo o render da Guarda no Carmo, sigo pelo Teatro da Trindade, espreito pela Cervejaria recordando episódios da minha vida anterior, aborreço-me pelo Pavilhão Chinês ali para os lados do Príncipe Real estar encerrado nesse dia mais cedo, desço o Bairro Alto de sesta tardia antecipando a noite ébria, ainda estou com amiga de outros tempos também em espaço de livros e mais cultura e histórias que se confundem com terramotos, incêndios e outros séculos … Na rua, equilibristas esforçam-se por alcançar o supremo dom de andar sobre-o-quase-nada, alheios à indiferença que são sujeitos por quem passa… é um espaço estranho a cidade… as pessoas são tão diferentes umas das outras que, só por si, dariam para uma tarde de ávida contemplação… Ao longe, o castelo parece dourado no seu posto altaneiro… é difícil imaginá-lo vermelho e sangrento das batalhas de conquistas e reconquistas. Custa-me regressar às entranhas do metro. Não gosto desse sentir da cidade toda por sobre mim, apesar de achar interessante as pessoas que entram e saem das carruagens… uma senhora idosa fala comigo e acabamos em franca cavaqueira que quase a faz perder o seu ponto de saída… um senhor de cor com educação diz-me boa tarde, senta-se à minha frente e quase automaticamente adormece… são pessoas de Domingo, possivelmente um pouco diferentes das que em dias de trabalho percorrem estas linhas subterrâneas. Resta-me mais uma manhã na cidade grande… aproveito para me encher de tudo aquilo que não existe na minha serra e em dia soalheiro aproximo-me da Praça do Império, do Mosteiro e da grande fortaleza da cultura… entre obras de artistas mais ou menos afamados encho-me de novas imagens e ideias e alimento um pouco a minha imaginação…
Recortes de obras expostas no Museu Colecção Berardo - Centro Cultural de Belém (pintura sobre tela)
Afasto-me de Lisboa pelo caminho mais longo, percorrendo durante uns quilómetros a marginal…
Voltarei em breve.

Autoria e Agradecimento

Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.

Todos os direitos estão reservados.

São excepção as fotografias do Feto Real e do Cardo que foram cedidas pelo João Viola e 2 imagens captadas na Net sem identificação de autor.