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quinta-feira, 3 de julho de 2025

Presságio


Afundei-me no instante em que te vi,
como quem escorrega docemente por um abismo sonhado.
O teu olhar — não o teu rosto, nem a tua voz —
o teu olhar foi o que me afogou, sem aviso,
como um mar que decide abraçar a arriba cansada.

Nada conhecia de ti,
nem do riso, nem das luzes ou das sombras,
ou, sequer, da dor escondida sob os gestos.

Mas soube!
Soube com o corpo inteiro,
com a minha alma que já nada esperava,
que tinhas em ti uma resposta antiga
para uma pergunta que nunca ousei fazer!

O teu olhar tocou-me como quem reconhece,
como quem lembra sem nunca ter vivido.
E, naquele breve roçar dos teus dedos no meu braço,
houve um silêncio que gritou dentro de mim.

Retratei-me.
Não por medo,
mas porque percebi que algo começava ali,
mas eu ainda era inverno.

Foste presságio,
vento quente, um ponto de luz num deserto sem mapa.
E, mesmo sem saber se voltaria a ver-te,
guardei-te no lugar onde nascem os milagres.

Foto: ASM "uma espécie de alvorada"


segunda-feira, 2 de junho de 2025

Há momentos...

"Há momentos na vida, quando o nosso coração está tão cheio de emoção que, se por acaso ele é agitado por alguma palavra descuidada, essa emoção transborda, como um segredo que se revela perante os nossos olhos..." 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

RETROSPECTIVA...

Olho para trás…
quase 365 dias antecedem o dia de hoje…
Inevitavelmente, recordo-os…
quase um a um…
os dias bons
os dias muito bons
os dias maus
os terrivelmente maus
aqueles sem qualquer história especial…
.
Observando bem uma boa parte do meu ano
saltaria de bom grado, afoita e veloz, a linha da minha vida
assim à laia de regato que se ultrapassa de uma assentada só
não se desejando molhar o pé na água gélida…
.
           [[porventura serei injusta…
           quantas manifestações de carinho ou simplesmente de apreço perderia
           quantas vivências, experiências, cumplicidades, descobertas…
           ou apenas o processo de reaprender a Ser…
           Evitaria porém algum sofrimento
           a dor da perda
           a tristeza e a solidão de alguns dias
           as palavras justas ou injustas que se ouviram ou proferiram
           as ideias mal formadas, as dúvidas, as inseguranças, os insucessos…]]
.
Olho para os 365 dias que antecedem o dia de hoje e,
não conseguindo de todo evitar,
balanço sobre os tempos mais ou menos longos, mais ou menos breves
num limbo desconcertante ou
talvez
numa espiral que rodopia incessantemente e me deixa afogueada
.
O que senti?
O que mudei nos outros?
O que fiz?
De que gostei?
O que recebi?
O que mudei em mim?
Como me dei?
.
Faço um balanço e tento descortinar
um momento -verdadeiramente Bom!-
nos 365 dias do meu ano
um momento único
meu, só meu
.
Descubro-O!
De tão simples, quase nada para contar!
A melodia suave e envolvente…
A penumbra reconfortante, também…
O calor acolhedor…
A ternura do acalento…
E sobretudo a Paz, quase palpável de tão presente!
.
Olho esses momentos breves com olhos de saborear…
Senti-me Feliz nesses instantes fugazes,
tão leve… sem pressões no coração,
sem pensamentos duros, sem mágoas…
leve…
tão leve de tudo…
que não e apenas
a melodia suave,
a penumbra reconfortante,
o calor acolhedor,
a ternura do acalento
a partilha do próprio momento…
tão leve de tudo
talvez até, de nada em especial!
.
Olho os meus (quase) últimos 365 dias e elejo um momento eterno
que de tão simples, tão singelo
e, afinal, tão especial
quase nada tenho para contar!


(texto adaptado e revisto-2016)

domingo, 28 de junho de 2009

Uma noite de SONHO!

É só ter o valor certo para pagar e asseguram-se duas horas de Sonho, pensado e executado profissionalmente, ao milímetro do pormenor, por quem sabe construir imaginários de encantamento e luz…

Apesar de o Sonho ser pago –a peso quase de ouro!- sinto que vale a pena esquecer por uns cento e vinte minutos que a vida lá fora é escassa…

Viver um serão no ‘Cirque du Soleil’ é como entrar dentro do próprio sol, em algo de grandioso, de feérico. É como entrar numa enorme cabeça dimensionada ao 'plateau'… onde faunos, duendes, fadas, monstros do fundo dos mares, personagens mitológicas, outras caricaturadas do nosso quotidiano, se misturam e se interagem e se transformam num ritmo frenético e criam um espectáculo de som, de luz, de imagem, de teatro, de artes de circo elevadas à sua expressão máxima de realização… um espectáculo onde tudo se complementa e nos transmite cor, encantamento, magia, esquecimento, alegria.

E, de repente, esqueço-me da vida de todos-os-dias e abro a boca de espanto e sinto-me de novo menina pequena, cheia de ideias, com o pensamento repleto de coisas doces, de coisas boas, daquelas que aconchegam e acalentam… e perco-me, completamente, na floresta mágica de bambus, com as luzes dos pirilampos a confundir-me o olhar, as imagens tétricas de seres reinventados que misturam o real com a imaginação e nos transformam a nós, espectadores ávidos de sonhos, em personagens da história que se desenrola em palco… e a música, que é extremamente envolvente, cantada ao vivo, permite sentir que é ali –naquele preciso momento, naquele instante!- que o Sonho decorre e flui… assim como fluem pelo ar seres sem asas que permitem que o seu adejar quase nos toque os cabelos… seres que voam sobre nós, deixando que a brisa do seu rasto nos entre pelos olhos dentro, também ela, mágica. Varekai, a palavra dos povos nómadas para definir ‘em qualquer lugar’. E é aí, em qualquer lugar, que existe e encontramos o Sonho, que tanto pode ser absurdo como absolutamente extraordinário, minúsculo ou grandioso, transcendente a tudo ou apenas inerente a nós próprios…

A meu lado, a minha criança está em perfeita sintonia comigo e com o Sonho. Estamos no sítio certo e partilhamos o momento certo. Só com ela faz sentido este momento.

E por momentos, a sensação de que vivo numa outra dimensão. Esqueço-me de ovacionar… "interiorizo-me" nestes seres quase etéreos que se espraiam pelo espaço. Por todo o espaço! Porque todos os elementos se completam e se interligam, a música enche os sentidos, a luz ou a escuridão enchem os sentidos e a própria história que nos vai sendo contada nos enche os sentidos… uma história de Amor… de um Ícaro que percorrendo o céu do seu próprio Sonho, perde as asas mas alcança o sentimento máximo do amor correspondido.

Pagamos por duas horas de Sonho… espectáculos repletos –esgotados- a justificar a ideia de que o mundo, as pessoas, precisam de Sonho para viver, mas já não sabem dar vida aos seus próprios sonhos.

Vale a pena. Vale o dinheiro. Nada como entregar a profissionais, competências que já não dominamos.

Não posso tirar fotografias ao Sonho… trago-O comprimido em caixinha digital para tentar reviver e partilhar o momento… sei, porém, que nada será igual. O momento já passou.

No dia seguinte, passo pelo recinto do circo, o Grand Chapiteau… desmontam o Sonho a grande velocidade. Dezenas de contentores se perfilam no espaço para O encaixotar e levar para outras paragens distantes onde haverá outros que pagarão para O sentir por duas horas. Foram realizados os últimos espectáculos em Lisboa. Chove intensamente… desapareceu a imagem do saltimbanco, do fauno, dos peixes coloridos, dos duendes e da fada de olhos cintilantes… não há música, nem cor, nem magia… só o cinzento do céu, o branco da tenda gigante e a ponte ao fundo que entre a névoa parece uma miragem…


Na minha cabeça persiste, porém, a imagem clara quase imberbe, de um Ícaro feliz.

domingo, 31 de maio de 2009

estavas por lá... nos braços do grande amor da tua vida!

Um ano e meio após, regressámos a Ribeira de Pena.

O calor sufocante do dia, absorvia a escassa energia que nos restava para cumprir um momento permanentemente adiado… momento de recordação, de nostalgia, de homenagem.
A emoção dominou-nos e percorremos –devagar- os instantes e os lugares onde fomos felizes.
Recordámos, principalmente, as últimas férias desse Verão que, de repente, já nos parece perdido no tempo… o afã de pôr bonita a “grande dama” para nos receber, conferindo-lhe embora toscamente algum do brilho de outrora no tempo da avó banoresa, quando a Casa regurgitava de esplendor e de vida… vida dos campos profusos, enleada com os toques senhoris da aristocracia rural... recordámos a felicidade desses nossos dias, não sabendo que seriam os últimos contigo a nosso lado.

Andámos por ali… cheirando a frescura quase mágica do jardim das japoneiras, encantados com as florzitas singelas e de cores vibrantes, ouvindo o som da água a cair no tanque dos girinos, caminhando no terreiro sob a sombra das cameleiras seculares e circundando a Casa, testemunha serena das nossas próprias recordações. A criança isolou-se e percorreu o espaço… sentidamente chorou, sentada nas velhas pedras do murete. Revivendo outros dias, outros momentos, saltitou por debaixo da nogueira, subiu as escadas do fundo, pendurou-se nos ramos das árvores. Quanto a mim, recordei-te e tornei-te próximo.
Senti, mais do que nunca, a falta da tua presença e da tua serena e infindável sabedoria que me sabia tranquilizar as minhas permanentes dúvidas sobre a vida, sobre as pessoas, sobre os sentimentos.
Imaginei-te por ali… finalmente feliz, enredado nos braços do primeiro e único grande amor da tua vida, Santa Marinha, pensando que quem não te soube compreender e aceitar esse amor, nunca te conheceu o âmago!-
Questionei-te sobre mim, sobre o que pensar, sobre o que fazer, sobre como continuar o caminho. Coloquei-te os meus sonhos e os meus anseios. Pedi-te que me ajudasses, como sempre, a perceber-me.
Disse-te que não conseguia sentir tantas emoções de uma só vez, que não as sabia orientar. Mais uma vez, imaginei o teu sorriso paternal e complacente e o que, com toda a certeza, me dirias… que encontraria todas as respostas dentro de mim...que conseguiria ir mais-além e, simplesmente, Ser!… acrescentarias, que era a mulher mais perfeita que conhecias –e eu fingindo acreditar, para te agradar! como se não me conhecesse por dentro e por fora e soubesse do que “a casa gasta” como diz por aí o povo-.
Andámos por ali, o calor atormentando a pele, dificultando o andar, o respirar…
A saudade -que contrasenso!- a dizer para nos irmos embora depressa, depressa… e a criança a andar sozinha sem querer amparo, revivendo e criando, à sua maneira, defesas para o futuro.
Também eu aprendi a amar Santa Marinha.
Sei que estás lá e que por lá ficarás para sempre, feliz!
Não sei se alguma vez mais regressarei.

Autoria e Agradecimento

Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.

Todos os direitos estão reservados.

São excepção as fotografias do Feto Real e do Cardo que foram cedidas pelo João Viola. As raras imagens captadas na Net com e sem identificação de autor, encontram-se devidamente referenciadas.