segunda-feira, 18 de maio de 2009

Diário de Viagem (2) …O Descobridor das Américas…

A história é, no mínimo, polémica.
São incontáveis as teorias e as teses, os estudos, os livros, os romances mais ou menos elaborados, os filmes… Envolve muitos séculos de segredos e mistérios… muitas histórias, dentro da sua própria história… muitas crendices, muitas fés, muitos ideais.
Que Cristóvão –Colombo ou Colon- descobriu as Américas em 1492 (acostando a um ilhéu das Bahamas, o qual foi baptizado como São Salvador), aos homens de hoje não restam quaisquer dúvidas. Isso é certo, tal como é certo que a descobriu a bordo das caravelas Pinta e Niña e da nau Santa Maria… embarcações de outrora, resistentes aos mares e aos “adamastores”, mas que hoje mais não parecem que pequenas “cascas de nozes”, tal a sua fragilidade perante outros navios mais possantes do porto do Funchal (e, mesmo assim, é evidente que falo de uma réplica, já de si munida de outras artes de marear).
Venho à Madeira na tentativa de apurar a nacionalidade desse, indubitavelmente, grande navegador e de desvendar os meandros dessa história de espionagem à moda do século XV que, segundo historiadores e estudiosos dessa época, constitui o maior embuste de todos os tempos.
A bordo desta simulação do Santa Maria é quase demasiado fácil acreditar no que quer que seja… o mar e o sol batem-me na fronte, no colo e nos braços e deixam-me a pele tisnada.
O horizonte perde-se no mar alto, a bombordo do meu olhar, fazendo-me pensar em como se aventuravam os homens de outrora a caminho do nada… só água à sua frente… um mês… dois meses… três meses…
À saída do porto do Funchal, o sino toca anunciando a partida e, não fora a embarcação cheia de ávidos turistas, quase me sentia marinheira à descoberta de novos mundos.
Estes, não me deixam esquecer que apenas navego junto à costa…

No Santa Maria de Colombo, existem résteas de cebolas e de alhos dependuradas no convés, assim como chouriços, presunto e bacalhaus secos, um caldeirão de três pernas para a confecção da sopa, a cabine do capitão, as araras, o cão que por ali deambula.
Temos de estar com atenção aos cabos e ai de quem se lhes refira enquanto cordas (cordas apenas três a bordo: a do relógio, a do sino e “acorda que vem aí o comandante!”)…

Apesar da modernice do motor potente, a nau navega à vela e, no regresso, estas são desfraldadas –a cruz portuguesa orgulhosamente enfunada- permitindo-nos sentir a tranquila e relaxante velocidade de 3,3 nós (cerca de 6 a 7 quilómetros à hora).

O Capitão e os marinheiros estão trajados à época (exceptuando os óculos de sol que me fazem sorrir perante a modernidade) e levam a sério o seu papel de se fingirem à descoberta de novos mundos… estão descalços e sobem ágeis ao cesto da gávea.
Vislumbro o Cabo Girão pelo lado do mar… é realmente impressionante a altura a pique deste promontório e apesar de apenas uma curta viagem de três horas, a sensação de que descubro novos horizontes deixa-me a alma cheia, quase me abstraindo do linguajar que me circunda.
De regresso ao porto, os canhões troam junto ao Forte de São José e no torreão a bandeira do Principado do Ilhéu da Pontinha está desfraldada. Junto a esta, o Príncipe diz-nos adeus com os braços no ar e está quase a dar-se início a uma pequena cerimónia…
mas esta é já outra história… até já! Para saber um pouco mais:

Diário de Viagem (1)... Bordados da Madeira

A Madeira é reconhecida para além de todas as suas particularidades físicas e naturais, culturais e até políticas pelos seus bordados elaborados, exigentes na confecção dos delicados pontos.
Desde sempre reconheci os bordados da Madeira… a minha própria avó era exímia nas artes de desenhar com agulha e linhas e possuía alguns exemplares de toalhas e panos de tabuleiros bordados nessa típica sabedoria.
Extraordinariamente, nunca até à data tinha ido ao Arquipélago da Madeira, sendo o único ponto do meu país ainda desconhecido para mim.
Viajei pois até à Ilha encantada, tão declamada desde tempos quase imemoriais para a descobrir para além dos seus bordados…
ou melhor, para descobrir outros bordados...
tecidos na própria natureza, pródiga em pontos diáfanos e pujantes de vida,
tecidos nos sabores ora delicados, ora intensos,
tecidos nos odores a mar e flores numa mistura inebriante,
tecidos no sotaque que aperta e contrai as vogais, nos termos característicos, nos aspectos da vida local, na cultura própria…
Passeei pela cidade, pelo campo e pelas montanhas…
por todo o lado o mar intensamente azul que nos acompanha permanentemente…
olhei a terra a partir do mar…
A cidade do Funchal surge mais bonita à noite, quando as suas luzes percorrem toda a paisagem, escalando as colinas e as veredas íngremes a partir do núcleo histórico e do porto junto à baía.
No casco mais antigo, as fachadas e as próprias casas estão cuidadas, as praças, pracetas e recantos são agradáveis, emoldurados por árvores como os jacarandás e as sumaúmas. São inúmeros os jardins e ao meu nariz de faro apurado chega-me um aroma constante de odores florais e quentes.
As flores são diferentes das que estamos habituados no continente. Vestidas a rigor nos seus fatos típicos as vendedeiras oferecem aos turistas próteas, antúrios e estrelícias.
O sino da Sé Catedral não me deixa perder o tempo e as badaladas ecoam à hora certa.
Subindo ao Monte pelo teleférico, descubro a paisagem mais lá do alto e, depois de percorrer o Jardim Tropical, observo os Carreiros na jogatina para quebrar os tempos mortos antes de matarem de susto os turistas que corajosamente se lançam pela encosta abaixo nos cestos vetustos. Parece-me uma vida dura a destes homens que me observam com alguma desconfiança face à minha máquina fotográfica.
O regresso é seguramente mais tranquilo pelo teleférico permitindo observar o casario. Sigo para o Pico dos Barcelos e para o centro da ilha (tão longe para os locais, mas apenas a uns escassos 16 ou 17 quilómetros, fazendo recordar que como tudo, até a própria distância é relativa).
A vegetação torna-se densa. Recorda-me a minha serra e encontro ao lado de plantas autóctones como o massaroco com o seu roxo vibrante, os fetos reais de dimensões quase gigantescas, a par da urze delicada em tons suaves de violeta ou das suaves fijis, os tímidos cogumelos escondidos nos recantos do caminho.
Na Eira do Cerrado, vislumbro quase 500 metros a pique –o que me permite verdadeiras fotografias aéreas- a vila do Curral das Freiras. Outrora, o centro da cratera do vulcão, a vila é um dos poucos locais da Madeira onde não se contempla o mar. A sua comunidade vive cercada de montanhas e de verde e a estradita que a percorre é recortada em curvas e contracurvas apertadas. Quando o povo da terra quer saber do estado da maré, olha para as pupilas de um gato e se a menina do olho se encontra na horizontal então ficam com a certeza de que esta está cheia… afirmam que a fórmula é infalível e eu, descrente de tal facilidade, prometo mais tarde confirmar.

Em Câmara de Lobos, vila piscatória, aprendo a história da pesca do peixe-espada preto que mais tarde saboreio em deliciosos filetes cobertos por banana frita e semilhas cozidas (batatas para os continentais), porventura oriundas das férteis fajãs (leiras de terreno junto ao mar). Terei tempo, depois, para provar o bolo do caco com manteiga de alho, os milhos fritos, o bolo de mel, o vinho da Madeira. Não ouso fazer o mesmo com a poncha, uma mistura de aguardente de cana com mel e limão. Nas encostas deste concelho, proliferam as pequenas plantações de bananeiras. Não há quintal que se preze que não possua pelo menos uma dúzia de árvores, todas escoradas como protecção dos fortes ventos marítimos.
O Cabo Girão, o promontório mais alto da Europa e o segundo maior do mundo, ergue-se imponente sobre o mar do alto dos seus seiscentos e tal metros. Terei oportunidade de o observar de perto, mais tarde, a bordo da nau de Colombo.
Tenho ainda tempo para visitar a costa norte da ilha. Passando o vale que entrecorta os picos da Serra de Água, apercebo-me em São Vicente e no Seixal porque as populações se concentram no sul. A costa é escarpada, batida de mar e de vento, mais fria e com pouco espaço para as povoações se espraiarem. Visito as entranhas da montanha e compreendo também porque “os vulcões são os dragões da terra”… a formação da ilha deve-se ao plasma expelido há milhões de anos, basalto do qual apanho pequenas pedras que levarei a amigos que fazem colecção.Apesar de eu me adaptar a qualquer lugar –dêem-me apenas tempo!- e imaginar-me a viver em muitos e diferentes sítios, a verdade é que o continente clama por mim. É lá que se encontram os motivos –todos os motivos!- e onde eu desejo ser e estar!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Estás a brilhar, mãe!

A noite passada
olhando o céu negro e pesado
entre uma nuvem e outra
encontrei por lá uma estrela.

Abracei-me a ela,
repousei o rosto na sua luz
deixei-me ir e
perdi-me na via láctea...
muito para além do último planeta

De manhã, ao acordar
a criança olhava-me com ar estranho!
- Mãe, estás a brilhar ?!
- Mãe, como tu és bonita !

domingo, 10 de maio de 2009

A flor da paixão...

a paixão cresce e vive atrás da casa dos meus pais...

ali meio dependurada entre o ferro forjado do murete,
num-nem-para-cá-nem-para-lá,
entre o quintal e o terraço...

Quem diria?
que a podemos encontrar em qualquer lugar...
mesmo à mão de semear !?

ao meu jeito...


sexta-feira, 1 de maio de 2009

a serra está intensamente verde!

Veio o sol
e como veio...

tanto sol...
intenso!
quente!
Um esplendor sobre a minha serra...
tingindo-a de luz,
dando intensidade e brilho ao verde.

Ao meu verde!
Mudando o próprio verde
e transformando-o em novas tonalidades
daquelas que acalentam...

Veio o sol ... a luz encheu tudo... tanta luz...
e as sombras que persistem são só daquelas que não me assustam...

Com o sol, o calor.
Que toca a pele e a aquece...
Que entra pelos olhos dentro deixando o olhar mais doce e vaporoso sobre todas as coisas.
Que anima e faz pulsar.
Que tranquiliza e afasta definitivamente o inverno que encarquilha ideias e sentimentos.

O sol, a deixar transparecer o verde que existe em mim e na minha serra.

E,

de novo,
sou Maria da Serra Verde
num renovado ciclo de folhagem, de cor e de vida.

só assim terá sentido!

sim
sou eu que importa
eu e a natureza que me rodeia
eu e o mundo inteiro que há em mim

sou eu que importa
eu e as minhas próprias asas
eu e todo o meu brilho intenso
(que teimo, repetidamente, em ofuscar)

sou eu e o céu em mim, azul ou negro,
mas céu
eu e o universo inteiro
eu e o plasma cá dentro em ebulição ou
o simples pássaro que antecipa o primeiro vôo.

sim
sou eu que importa
eu e o meu olhar delicado sobre todas as coisas.

sou eu...
mesmo que não saiba ainda o caminho, ou o rumo ou
apenas o porquê de respirar todos os dias,

sou eu e
tudo o que tenho em mim .

transparente...



como a água gélida do ribeiro que
desvenda ao olhar alheio
os seixos do seu leito

Autoria e Agradecimento

Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.

Todos os direitos estão reservados.

São excepção as fotografias do Feto Real e do Cardo que foram cedidas pelo João Viola. As raras imagens captadas na Net com e sem identificação de autor, encontram-se devidamente referenciadas.