quinta-feira, 15 de outubro de 2009

solidão absoluta é isto!

Para mim é uma perplexidade que simplesmente não compreendo.
Como é possível, alguém morrer num apartamento e o seu corpo apenas ser encontrado dois anos após?
Tinha família, dizem.
Os vizinhos não notaram nada, afirmam.


Um homem morreu na completa solidão. Tal, ainda se entende. Pode acontecer a qualquer um não ter com quem compartilhar o seu último acto.
Porém, que ninguém se tenha apercebido que este homem já não existia e que já não fazia parte das suas vidas, é que eu não compreendo. Nem a mulher ou os filhos, nem um amigo, um conhecido que fosse, nem o homem da padaria ou da tabacaria ou porventura o vizinho do rés-do-chão posterior. Ninguém sentiu a falta deste homem.

Como é possível? Que alguém tenha morrido num apartamento de um prédio de 03 ou 04 andares e ninguém, absolutamente ninguém, tenha notado a sua ausência, o seu silêncio.
Um esquecimento tão total, uma indiferença tão absoluta que causa mágoa.
Desculpem, mas esta custa-me mesmo “a engolir”.
E acreditem ou não, chorei por esse homem desconhecido e pela sua solidão atroz.

Vivemos num mundo que qualquer história que imaginação fértil invente, não supera a realidade nua e crua dos quotidianos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

lua cheia...


De qualquer lugar do mundo se vislumbra a lua...
É contemplando-a que alcançamos os olhos dos outros...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Bucólicas...

o papagaio de papel


E
se o meu peito se abrisse de par-em-par
e ele próprio fosse
uma janela aberta ao mundo?

E
se do meu peito rasgado não jorrasse sangue
nem se descortinassem músculos
ou sequer o coração
mas se transformasse, peça-a-peça
num enorme papagaio de papel?

E
se alguém –simplesmente-
cortasse a aorta como quem corta
o cordel do enorme papagaio de papel
em que se transformasse o meu peito?

E
se o meu peito transformado ave
se soltasse em direcção ao céu?
Livre, livre…

sábado, 12 de setembro de 2009

a escola dos meninos perdidos...

é num recanto escondido da serra do Alvão, num (a)Trás (d)os Montes profundo, numa aldeia de que não decorei o nome...
mas a imagem poderia ter sido captada noutra qualquer ou até numa das dúzias de aldeias igualmentes esquecidas que povoam a minha serra da Lousã...
imagens de escolas em terras perdidas de mestres, de meninos, de gente...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

com a torga à cabeça...


Com a torga à cabeça -raiz pesada da urze das encostas da serra do Alvão- a mulher posa para a fotografia. Desinibida e feliz por ser importante para mim.


Naquele preciso momento, faz-me feliz por a registar e sente-se feliz por a acharem bonita -que faço questão de lhe afirmar e louvar a beleza!-.


Os seus traços rudes mostram a crueza da vida e tornam-na perfeita aos meus olhos...


No Alvão, carregando estrada fora a raíz de torga à cabeça -aquela raiz que mais lá para o Inverno aquecerá os seus ossos enregelados com o frio intenso destas paragens- a mulher prossegue o seu caminho, encantada por ter composto o meu bucólico postal ilustrado.


Pssstttt...ó menina... tire-me uma fotografia...

sábado, 5 de setembro de 2009

O Burro Xico...



O Burro Xico mora para ali para os lados de Miranda do Corvo,
no Centro Hípico da Quinta da Paiva...
Se existe criatura à face da Terra com a qual me identifique é com o Burro Xico...
Meigo...
Fiel...
Teimoso... (Tenaz? Persistente?)
Inteligente...
Constante...
sempre burro, todavia...

É certo que não fala, que não pensa
-dizem!-
mas gosta das minhas cenouras e...
dos meus afagos...
O Burro Xico é um amigo para a vida...

O Rapaz da Serra Verde...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

e todo o mundo lá fora...

Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada e, todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

[de Fernando Pessoa, em Ficções do Interlúdio]

Autoria e Agradecimento

Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.

Todos os direitos estão reservados.

São excepção as fotografias do Feto Real e do Cardo que foram cedidas pelo João Viola. As raras imagens captadas na Net com e sem identificação de autor, encontram-se devidamente referenciadas.