quinta-feira, 16 de outubro de 2008
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
o teu livro já não é teu... é também meu!
ao sabor das ondas... que vão e vêm, de mansinho!
Imagino um mar sereno e eu,
pairando sobre ele e eu,
mergulhando nele.
Relembro o teu livro, Joaquim Jorge, prestando-lhe(te) homenagem através das doces e sentidas palavras do Francisco.
Palavras daquelas que enchem tudo...
Obrigada pelas belas palavras do teu livro, que motivaram das mais belas palavras que alguma vez me foram dirigidas...
«Eu não gosto do mar.
Não gosto do surdo marulhar das ondas. Não gosto da espuma revolta formando-se em catadupas por sobre a areia.
Vislumbro no azul do mar tons traiçoeiros e nervosos.
Cansa-me a planura do horizonte.
Às vezes, para me desculpar, digo que não sou filho de marinheiros, antes de gente que solidificou gerações na solidez da terra húmida e fértil.
Eu não gosto do mar. Mas amo uma mulher que ama o mar.
E quando vejo o mar nos olhos dela, vejo o mar de outra maneira, vejo o mar através dos olhos dela. E já dei comigo a amar o mar nela.
Ao ler o mais recente livro do Joaquim Jorge, voltei a vacilar na minha relação com o mar.
Num posfácio de Daniel Abrunheiro acabo de ler: “… os montes, as serras, as montanhas – são mares petrificados.”
E esses mares eu amo, com toda a intensidade de quem não sabe viver sem o verde, sem os infindáveis tons de verde dos mares petrificados.
Nos mares petrificados que tanto amo, reconheço o que Daniel diz: “Nos montes interiores as pedras são feitas de espelhos: o céu tem caruma, a resina neva, as veredas enchem-se de bandoleiros pobres. O bandoleiro mais pobre é o coração”.
Um livro, nascido do seio de um escritor, deixa de lhe pertencer depois de lido.
A Inquietação de Barcos, do meu amigo Joaquim Jorge, que acabo de ler, é agora, também, meu.
E começou por o ser através das palavras do Daniel que acabo de citar.
O Joaquim Jorge, na sua admiração pelo Daniel, me perdoará.
Mas quero que saibas, Joaquim Jorge, que ao ler o teu livro, peguei no telefone e liguei para a minha mulher, para lhe ler o teu poema Astronomia:
– “A Terra à volta do Sol: / Movimento de translação da Terra / A Terra à volta de si própria: / Movimento de rotação da Terra / Os meus olhos à volta de Ti: / Movimento de admiração da Terra”.
Do outro lado ouvi:
– Que bonito… E um emocionado “há tanto tempo que não me lias poesia…”
É verdade, há tanto tempo que não namorava nas palavras de um poeta.
Devo-te mais isso Joaquim Jorge!
E revejo-me na tua Sereia:
– “Quando o barco chegou da faina, Manuel, / Interroguei-te de novo. Sobre as redes / Dissestes que havia chicharros, gaiado, / Atum, polvo, freira, caramujos - / Portanto, Manuel, que não havia sereias. / Amanhã voltarei, confiante ainda.”
Eu seria capaz, JJ, de voltar todos os dias na esperança das sereias
Revi nas tuas palavras o Segredo do mundo:
– “A concha disse-me ao ouvido o segredo do mundo: / Aquele que habitar os olhos da Mulher / Tocará nas estrelas e na dor dos deuses.”
Já me sucedeu habitar os olhos da Mulher, tocar as estrelas e a dor dos deuses.
Renovaste-me a esperança…
Reconheço-me no teu Horizonte:
– “Se os teus olhos deixassem / Que os meus olhos visitassem / Os teus olhos verde-mar / Talvez eles lá ficassem / Ou, então, se não ficassem / Quisessem muito ficar…”
E vou usar no meu trabalho e na minha campanha pela participação cidadã o teu poema Rua.
Vou ler a outros, muitas vezes, os últimos versos:
“Mas ai, é tão bonito / Quando há vizinhança boa e antiga – Quando me dizem. A nossa rua / A nossa rua, amigo. Nossa!”
Como vês, Joaquim Jorge, o teu livro já não é teu. É também meu. Por tudo o que nele me tocou, por tudo o que senti nele.
E pela dedicatória que me deixaste na primeira página. Que me tocou e que, agora minha, quero partilhar com todos.
Dizes tu:
"Ofereceste-me, certa vez, um livro de Jorge de Sousa Braga, com o título Os Pés luminosos. Foi nele que encontrei um dos mais belos poemas de sempre.
Isto: “É tão difícil guardar um rio / Sobretudo quando ele corre / Dentro de nós”.
Gosto de pensar que essa espécie de rio habita as gentes que valem a pena.
Gosto de pensar que algumas pessoas partilham essa certeza (ou suspeita) de um rio correndo dentro de si.
Gosto de pensar que um rio assim torna a vida (mais) válida e urgente.
É neste rio de nós que se está bem!"
O rio que corre dentro de mim, Joaquim Jorge, é hoje em dia um rio sereno.
Um rio onde se banham as almas e os corpos de muita gente.
Vejo-te lá muitas vezes.
E as águas do meu rio são sempre doces e envolventes para ti.
Carícias de AMIGO. Francisco »
Não gosto do surdo marulhar das ondas. Não gosto da espuma revolta formando-se em catadupas por sobre a areia.
Vislumbro no azul do mar tons traiçoeiros e nervosos.
Cansa-me a planura do horizonte.
Às vezes, para me desculpar, digo que não sou filho de marinheiros, antes de gente que solidificou gerações na solidez da terra húmida e fértil.
Eu não gosto do mar. Mas amo uma mulher que ama o mar.
E quando vejo o mar nos olhos dela, vejo o mar de outra maneira, vejo o mar através dos olhos dela. E já dei comigo a amar o mar nela.
Num posfácio de Daniel Abrunheiro acabo de ler: “… os montes, as serras, as montanhas – são mares petrificados.”
E esses mares eu amo, com toda a intensidade de quem não sabe viver sem o verde, sem os infindáveis tons de verde dos mares petrificados.
Nos mares petrificados que tanto amo, reconheço o que Daniel diz: “Nos montes interiores as pedras são feitas de espelhos: o céu tem caruma, a resina neva, as veredas enchem-se de bandoleiros pobres. O bandoleiro mais pobre é o coração”.
A Inquietação de Barcos, do meu amigo Joaquim Jorge, que acabo de ler, é agora, também, meu.
E começou por o ser através das palavras do Daniel que acabo de citar.
O Joaquim Jorge, na sua admiração pelo Daniel, me perdoará.
Mas quero que saibas, Joaquim Jorge, que ao ler o teu livro, peguei no telefone e liguei para a minha mulher, para lhe ler o teu poema Astronomia:
– “A Terra à volta do Sol: / Movimento de translação da Terra / A Terra à volta de si própria: / Movimento de rotação da Terra / Os meus olhos à volta de Ti: / Movimento de admiração da Terra”.
Do outro lado ouvi:
– Que bonito… E um emocionado “há tanto tempo que não me lias poesia…”
É verdade, há tanto tempo que não namorava nas palavras de um poeta.
Devo-te mais isso Joaquim Jorge!
E revejo-me na tua Sereia:
– “Quando o barco chegou da faina, Manuel, / Interroguei-te de novo. Sobre as redes / Dissestes que havia chicharros, gaiado, / Atum, polvo, freira, caramujos - / Portanto, Manuel, que não havia sereias. / Amanhã voltarei, confiante ainda.”
Eu seria capaz, JJ, de voltar todos os dias na esperança das sereias
– “A concha disse-me ao ouvido o segredo do mundo: / Aquele que habitar os olhos da Mulher / Tocará nas estrelas e na dor dos deuses.”
Já me sucedeu habitar os olhos da Mulher, tocar as estrelas e a dor dos deuses.
Renovaste-me a esperança…
Reconheço-me no teu Horizonte:
– “Se os teus olhos deixassem / Que os meus olhos visitassem / Os teus olhos verde-mar / Talvez eles lá ficassem / Ou, então, se não ficassem / Quisessem muito ficar…”
E vou usar no meu trabalho e na minha campanha pela participação cidadã o teu poema Rua.
Vou ler a outros, muitas vezes, os últimos versos:
“Mas ai, é tão bonito / Quando há vizinhança boa e antiga – Quando me dizem. A nossa rua / A nossa rua, amigo. Nossa!”
Como vês, Joaquim Jorge, o teu livro já não é teu. É também meu. Por tudo o que nele me tocou, por tudo o que senti nele.
E pela dedicatória que me deixaste na primeira página. Que me tocou e que, agora minha, quero partilhar com todos.
Dizes tu:
"Ofereceste-me, certa vez, um livro de Jorge de Sousa Braga, com o título Os Pés luminosos. Foi nele que encontrei um dos mais belos poemas de sempre.
Isto: “É tão difícil guardar um rio / Sobretudo quando ele corre / Dentro de nós”.
Gosto de pensar que essa espécie de rio habita as gentes que valem a pena.
Gosto de pensar que algumas pessoas partilham essa certeza (ou suspeita) de um rio correndo dentro de si.
Gosto de pensar que um rio assim torna a vida (mais) válida e urgente.
É neste rio de nós que se está bem!"
O rio que corre dentro de mim, Joaquim Jorge, é hoje em dia um rio sereno.
Um rio onde se banham as almas e os corpos de muita gente.
Vejo-te lá muitas vezes.
E as águas do meu rio são sempre doces e envolventes para ti.
Carícias de AMIGO. Francisco »
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Tenho uma prima em África…
Porventura, no final, continuará com uma certa obscuridade o motivo da sua redacção, assim como pouco clara a longa história que está por detrás e conta já, com longos quarenta e três anos de vida.
Este texto deveria ser capaz de transmitir mais do que simples palavras ou ideias ou sentimentos…
deveria ter a capacidade de se metamorfosear, por exemplo…
em cheiros, aromas quentes, daqueles que entram e enchem todos os sentidos…
em sensações na pele, de brisas cálidas e águas tépidas, de texturas selvagens e agrestes…
em sabores, paladares inebriantes, fortes, picantes…
este texto deveria ter a capacidade de saber transmitir os sons das batucadas ao fim da noite a evocar espíritos e demónios e a afastar desgraças…
“I had a farm in Africa…” palavras iniciais de um livro que resultou num filme magistral interpretado por magistrais artistas…
às vezes, costumo proferi-las baixinho… porquê? sei lá bem porquê…
–o som agrada-me e conforta-me…
“I had a farm in Africa”-…
Um som que me recorda a mão cheia –vazia?- de recordações que tenho dos poucos mais de nove anos em que lá nasci e vivi.
Apenas e quase só isso!
Sim… este texto deveria saber transmitir toda a minha África nas palavras…
aquela que permaneceu encerrada em mim, incólume, estranha, indecifrável…
…e não aquela que se traduz na prática, tão somente, nas recordações de objectos acumulados –às vezes apenas de pó- na prateleira central da estante da sala, assim à laia de altar ou santuário a umas raízes perdidas. É estranho, mas parece que tenho, que cabe, toda a África na estante da minha sala…
E afinal, é nessa África tão longínqua, a que nunca mais retornei mais uma vez sabe-se lá bem porquê -as viagens são caras, o tempo é curto, a criança é ainda pequena, agora não dá por causa da escola, depois por causa do trabalho, da falta de disposição, do dinheiro, sabe-se lá bem porquê!- que se encontra a minha justificação de ser… o início de todos os inícios daquela mistura mais ou menos incompreensível que sou eu… o princípio e quem sabe? o fim de tudo.
Sinto o aperto das ideias… fará qualquer sentido o círculo?
Já sou portuguesa há tempo demais! A revolução que me trouxe ficou perdida lá bem atrás no tempo, recordam-se dela?
Alguma vez terei sido africana?
A alvura excessiva da minha pele quase me faz duvidar disso…
A África é negra! A África é pele tisnada pelo sol insuportável de quente. Figurativamente, o meu sangue não deveria ser apenas vermelho, deveria ter laivos de preto e das cores intensas do mato.
Fará sentido questionar?
Ou é uma mera casualidade espaço temporal que define a minha naturalidade no BI?
Naturalidade-de-fulana-de-tal:Moçambique… assim tão somente.
Ao longo de todos estes anos a ligação com essa outra África, aquela que permaneceu distante de mim, foi mantida através de família…
tios e dúzias de primos –uma expressão!- de todos os graus e idades…
família próxima de sangue, mas na maior parte dos casos longínqua de laços…
Dessa família, ligações breves, efémeras até, que a larga distância não ajudou a consolidar.
“Os primos de África”… sujeitos quase etéreos, materializados em encontros fugazes aqui e ali perdidos nos anos ou
em presentes étnicos que pontualmente chegam em forma de capulanas ou bustos de madeiras exóticas e cheirosas…
Muito de quando em vez, quase a medo, retribuo à minha moda essas ofertas…
- afinal quais são os gostos? os valores? os estares? os sentires?-.
Porém, a vida é um lugar estranho e, por vezes não vezes demais, tem a capacidade de nos surpreender…
Elos surgem através das palavras…e, incrivelmente, percorrem doze mil e tal quilómetros, num ápice. Portugal e Moçambique tornam-se mais próximos, quase um-aqui-ali consentido pelas tecnologias de bytes e satélites.
Lá longe, uma prima lê-me, compreende-me e sente o que expresso como seu, como se só para si fossem as minhas palavras.
E descubro, que é também para ela que escrevo…
que me tento descobrir e redescobrir no seio das minhas tortuosidades.
Uma troca, uma partilha
–quase carinhosa, fará isto sentido?-
que me surpreende…
que a conforta e me conforta!
E mais do que nunca sinto esse apelo das raízes…
– as outras… as do primeiro início!-
e sinto que se criam elos de empatia, tornando a distância e os sentimentos próximos.
Obrigada Guida!
Hoje, são só para ti as minhas palavras.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
O Toque da Borboleta – 2º. momento por Pedro Laranjeira
borboleta em fuga vã,
não persigas a montante
um ontem sem amanhã!
Ruma ao futuro jusante
da vida que se desenha
em cada gota de cor
que nasce na alvorada
transmutada dessa dor,
em cada pequeno nada,
em cada ilusão de céu
que a lua fugaz apanha
por entre nuvens e breu,
e te poisa no olhar
quando sonhas acordada.
O amor não morre nunca,
vive connosco em segredo
e não se compara a nada!
É hora de cavalgar
a onda do teu destino:
vive o futuro sem medo,
que tudo o resto é divino!
Nada muda o que passou,
nem aquilo que te fez…
encontra a paz de viver
com o que a vida ensinou
e recomeça outra vez!
Não custa nada, vais ver,
e do lento sofrimento
serás a metamorfose
duma nova borboleta
em demanda de quimera
onde as asas te adormeçam.
É assim a primavera,
Maria da Serra Verde,
é a vida que renasce
sedenta de novo alento
esfomeada de osmose
em busca de nova meta!
E lá, ao raiar da aurora
verás a desabrochar
um jardim de mil flores
que espera por ti agora!
Mergulha nele, borboleta,
mistura-te ao firmamento
de mil sois a festejar
o berço do nascimento,
da Maria chão de Serra,
porque és verde,
como a terra,
e flor de encantamento!
não persigas a montante
um ontem sem amanhã!
Ruma ao futuro jusante
da vida que se desenha
em cada gota de cor
que nasce na alvorada
transmutada dessa dor,
em cada pequeno nada,
em cada ilusão de céu
que a lua fugaz apanha
por entre nuvens e breu,
e te poisa no olhar
quando sonhas acordada.
O amor não morre nunca,
vive connosco em segredo
e não se compara a nada!
É hora de cavalgar
a onda do teu destino:
vive o futuro sem medo,
que tudo o resto é divino!
Nada muda o que passou,
nem aquilo que te fez…
encontra a paz de viver
com o que a vida ensinou
e recomeça outra vez!
Não custa nada, vais ver,
e do lento sofrimento
serás a metamorfose
duma nova borboleta
em demanda de quimera
onde as asas te adormeçam.
É assim a primavera,
Maria da Serra Verde,
é a vida que renasce
sedenta de novo alento
esfomeada de osmose
em busca de nova meta!
E lá, ao raiar da aurora
verás a desabrochar
um jardim de mil flores
que espera por ti agora!
Mergulha nele, borboleta,
mistura-te ao firmamento
de mil sois a festejar
o berço do nascimento,
da Maria chão de Serra,
porque és verde,
como a terra,
e flor de encantamento!
Tão bonitas, tão especiais estas palavras
e feitas para mim, só para mim!!!
e feitas para mim, só para mim!!!
Que privilégio, que encantamento!
Obrigada Pedro e desculpa ter ousado
partilhá-las com os amigos.
partilhá-las com os amigos.
sábado, 2 de agosto de 2008
Quase me esquecia como sou uma mulher do mar...
Com tanta serra à frente das minhas janelas, da minha vida de todos os dias,
quase me esquecia como sou uma mulher do mar.
Como nasci junto dele…
quase dentro dele…
ali bem ao lado de casa… num saltitar constante entre areia e lar…
dia após dia sentindo o ar quente, a água quente, a vida quente de África.
Um mar tão sereno, tão morno, transparente, quase translúcido… com búzios de formas perfeitas e areia tão fina, tão branca, tão limpa que quase perfurava os pés…
Como nasci junto dele…
quase dentro dele…
ali bem ao lado de casa… num saltitar constante entre areia e lar…
dia após dia sentindo o ar quente, a água quente, a vida quente de África.
Um mar tão sereno, tão morno, transparente, quase translúcido… com búzios de formas perfeitas e areia tão fina, tão branca, tão limpa que quase perfurava os pés…
pés de criança que, teimosamente, tocavam as medusas sedutoras e venenosas…
Quase me esquecia, neste desejo de fincar as raízes no solo, como amo o cheiro da maresia…
os salpicos da espuma a bater no corpo e a refrescar as ideias turvas…
o som das gaivotas que romanticamente torno agradáveis aos sentidos no seu eterno despique com as ondas.
E ao longe, tão longe, o horizonte a fazer perder o olhar e o pensamento!
Quase me esquecia como gosto de estar sentada na areia ou no paredão da praia, sozinha a contemplar e a sentir a natureza fora e dentro de mim…
Aos poucos, o mar vai vazando para o outro lado do mundo…
as rochas vão surgindo…
as pessoas vão desaparecendo do meu espaço e eu
fico sentada a contemplar a praia no seu entardecer tranquilo, sentindo na pele o sol ainda tépido.
Quase me esquecia, neste desejo de fincar as raízes no solo, como amo o cheiro da maresia…
os salpicos da espuma a bater no corpo e a refrescar as ideias turvas…
o som das gaivotas que romanticamente torno agradáveis aos sentidos no seu eterno despique com as ondas.
E ao longe, tão longe, o horizonte a fazer perder o olhar e o pensamento!
Quase me esquecia como gosto de estar sentada na areia ou no paredão da praia, sozinha a contemplar e a sentir a natureza fora e dentro de mim…
Aos poucos, o mar vai vazando para o outro lado do mundo…
as rochas vão surgindo…
as pessoas vão desaparecendo do meu espaço e eu
fico sentada a contemplar a praia no seu entardecer tranquilo, sentindo na pele o sol ainda tépido.
Sou feliz agora! 
Hoje, deitei-me ao contrário na cama…
Hoje, deitei-me ao contrário na cama…
Olhei o tecto ao contrário do habitual…
As cortinas ao contrário, também…
A janela numa outra posição…
As almofadas lá em baixo, com os pés em cima!
e…
foi como se num ápice neste revirar do sentido das coisas
o meu mundo, ele próprio no seu todo,
se virasse do avesso!
De repente, rodando o ângulo do meu olhar…
todos os sentidos sobre as coisas rodaram também…
enfim, como se nesse gesto simples eu fosse capaz de rodar a própria vida…
capaz de GRANDES feitos –daqueles que enchem o coração, enchem TUDO e, nos fazem sentir gente de verdade-.
Incompreensivelmente, as lágrimas começaram a correr neste meu desvario ao contrário…
entre a utopia e a certeza…
E fiquei a imaginar o passo seguinte…
naquele que faria a diferença na minha vida…naquele preciso passo que lhe daria SENTIDO!
Como virar a vida ao contrário?
Olhei o mundo do meu quarto ao contrário…
olhei para além da luz do candeeiro da mesinha-de-cabeceira…
olhei para além dos livros que lentamente leio ao sabor do meu cansaço quotidiano…
olhei para além da cabeceira singela e recta de madeira cor-de-mel-ou-de-cerejeira (as cerejas não são vermelhas?)…
olhei para além da parede e alcancei…
a única grande e significativa descoberta da noite…
em todo o seu esplendor, bem no centro do tecto do meu mundo
–o meu quarto de dormir!-
uma fenda na pintura alva em toda a sua largura!
E concluí, antes de adormecer cansada de tanta profunda reflexão, que não compensa às vezes mudar o sentido natural das coisas.
Olhei o tecto ao contrário do habitual…
As cortinas ao contrário, também…
A janela numa outra posição…
As almofadas lá em baixo, com os pés em cima!
e…
foi como se num ápice neste revirar do sentido das coisas
o meu mundo, ele próprio no seu todo,
se virasse do avesso!
De repente, rodando o ângulo do meu olhar…
todos os sentidos sobre as coisas rodaram também…
enfim, como se nesse gesto simples eu fosse capaz de rodar a própria vida…
capaz de GRANDES feitos –daqueles que enchem o coração, enchem TUDO e, nos fazem sentir gente de verdade-.
Incompreensivelmente, as lágrimas começaram a correr neste meu desvario ao contrário…
entre a utopia e a certeza…
E fiquei a imaginar o passo seguinte…
naquele que faria a diferença na minha vida…naquele preciso passo que lhe daria SENTIDO!
Como virar a vida ao contrário?
Olhei o mundo do meu quarto ao contrário…
olhei para além da luz do candeeiro da mesinha-de-cabeceira…
olhei para além dos livros que lentamente leio ao sabor do meu cansaço quotidiano…
olhei para além da cabeceira singela e recta de madeira cor-de-mel-ou-de-cerejeira (as cerejas não são vermelhas?)…
olhei para além da parede e alcancei…
a única grande e significativa descoberta da noite…
em todo o seu esplendor, bem no centro do tecto do meu mundo
–o meu quarto de dormir!-
uma fenda na pintura alva em toda a sua largura!
E concluí, antes de adormecer cansada de tanta profunda reflexão, que não compensa às vezes mudar o sentido natural das coisas.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
o toque da borboleta...
Será que vale a pena a vida breve da borboleta perante uma natureza que cumpre rigorosamente os seus próprios ciclos de vida?
Como aceitar, como compreender que esta termina -assim!- antes do tempo certo?
Sem mais um sopro de ar…
sem mais um segundo sequer…
quando não estamos ainda preparados…
…e não demos o último beijo,
…ou o abraço mais apertado,
…nem dissemos as palavras mais bonitas
…ou partilhámos o olhar mais intenso…
-e quando é o tempo certo?-
…e não demos o último beijo,
…ou o abraço mais apertado,
…nem dissemos as palavras mais bonitas
…ou partilhámos o olhar mais intenso…
-e quando é o tempo certo?-
A vida esvaí-se e ficam –sempre!- por ver e sentir e partilhar tantas, tantas coisas…
e as saudades do que não vivemos!
Como aceitar?
Como compreender o toque breve da vida dos outros na nossa vida?
…quando o amor permanece e
a saudade enche tudo?
Será a vida tão efémera como o suave toque de uma borboleta na flor?
Para ti Sónia, que recordas, um ano depois, a tua mãe...
E para mim própria...
Recordando-nos que as pessoas que amamos permanecem vivas nos nossos corações.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
quarta-feira, 9 de julho de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
quinta-feira, 24 de abril de 2008
terça-feira, 8 de abril de 2008
A tradição cumpre-se e o povo sobe à serra...
Hoje, deambulei por esta terra que me adoptou ou que eu adoptei – sei lá bem os contornos legais!-, perdida por aí pelos cantos e recantos, ruas e becos –acredito que até desconhecidos, para a maioria dos naturais!-.
Andei, por aqui e por ali, sem fazer nada senão que olhar e absorver os pormenores e captar detalhes que registo em imagem.
Por momentos, volto atrás na história, e regresso aos meus tempos de criança e jovem, solta e livre nas férias mesmo grandes, em casa dos meus avós paternos. O cheiro a calor, ao doce abandono dos dias, sem nada de penoso para fazer, só brincar e perder-me com os amigos pelos pinhais e imaginar e encenar as aventuras que líamos nos livros d’Os Cinco.
Vogando, sem sentido, por estas ruelas sinto que a Lousã, a velha Lousã, já não existe… as casas do antigo casco estão definitivamente perdidas, à mercê do abandono e da futura derrocada. Que histórias tristes encerram? A nova Lousã emerge no meio do casario mais tradicional e característico e perde, aos poucos, a sua identidade. Que pena! Que linda deveria ser a vila de outrora, airosa e encantadora sob este mesmo sol escaldante. Agora, olho em redor e vejo grande parte destes velhos testemunhos à venda. Parece-me que toda a Lousã está mais ou menos à venda… que falhou na sua história, onde se perdeu o rumo?
Continuo. Olho por sobre os muros e descubro as cores das árvores ainda em flor, a luz intensa nas terras ainda cultivadas e esqueço as paredes velhas e em decadência. Paro um pouco para descansar no grande espaço que foi antigamente a Quinta do Palácio. Estranho, uma vez mais, os pilares brancos que o circundam… avanço pelo Penedo e cumprimento um polícia que me olha estranhamente para a máquina fotográfica. “Os polícias estranham sempre as máquinas fotográficas!” que os episódios do meu historial assim o comprovam.
Deambulo perdida, mas com o coração a encher-se de sol… de tanto sol, de calor… de tanto calor, de esperança… de tanta esperança… sensações que cobrem a escuridão dos pensamentos da noite anterior.
Umas Senhoras sentadas no banco do largo, velhas amigas certamente em troca de confidências, pedem-me que as fotografe... prometo deixar-lhes uma impressão na sapataria da esquina!
Recordam-me que -hoje- é a primeira das procissões da Santa Padroeira, a Nossa Senhora da Piedade e subo, a pé, o caminho da Serra, já com um sentido para os meus passos.
Bebo água, tento respirar compassadamente… inspiro, pelo nariz… expiro, pela boca…
É de facto dia de festa e romaria… o número de viaturas, de polícias, de pessoas caminhando, é intenso.
Passo pelos músicos da filarmónica que se acotovelam em torno do seu maestro e ajeitam os instrumentos que terão de tocar – se possível, com afinação- e de carregar, serra acima. Uns heróis! E paro no caminho "para ver a banda passar..."
Tenho o passo rápido e ultrapasso suados romeiros nas suas fatiotas domingueiras, muitos a pensar porque raio tiveram a ideia de estrearem os sapatos nesse dia…
Andei, por aqui e por ali, sem fazer nada senão que olhar e absorver os pormenores e captar detalhes que registo em imagem.
Por momentos, volto atrás na história, e regresso aos meus tempos de criança e jovem, solta e livre nas férias mesmo grandes, em casa dos meus avós paternos. O cheiro a calor, ao doce abandono dos dias, sem nada de penoso para fazer, só brincar e perder-me com os amigos pelos pinhais e imaginar e encenar as aventuras que líamos nos livros d’Os Cinco.
Vogando, sem sentido, por estas ruelas sinto que a Lousã, a velha Lousã, já não existe… as casas do antigo casco estão definitivamente perdidas, à mercê do abandono e da futura derrocada. Que histórias tristes encerram? A nova Lousã emerge no meio do casario mais tradicional e característico e perde, aos poucos, a sua identidade. Que pena! Que linda deveria ser a vila de outrora, airosa e encantadora sob este mesmo sol escaldante. Agora, olho em redor e vejo grande parte destes velhos testemunhos à venda. Parece-me que toda a Lousã está mais ou menos à venda… que falhou na sua história, onde se perdeu o rumo?
Continuo. Olho por sobre os muros e descubro as cores das árvores ainda em flor, a luz intensa nas terras ainda cultivadas e esqueço as paredes velhas e em decadência. Paro um pouco para descansar no grande espaço que foi antigamente a Quinta do Palácio. Estranho, uma vez mais, os pilares brancos que o circundam… avanço pelo Penedo e cumprimento um polícia que me olha estranhamente para a máquina fotográfica. “Os polícias estranham sempre as máquinas fotográficas!” que os episódios do meu historial assim o comprovam.
Deambulo perdida, mas com o coração a encher-se de sol… de tanto sol, de calor… de tanto calor, de esperança… de tanta esperança… sensações que cobrem a escuridão dos pensamentos da noite anterior.
Umas Senhoras sentadas no banco do largo, velhas amigas certamente em troca de confidências, pedem-me que as fotografe... prometo deixar-lhes uma impressão na sapataria da esquina!
É de facto dia de festa e romaria… o número de viaturas, de polícias, de pessoas caminhando, é intenso.
A Lousã, pelo menos uma vez no ano, sobe ao Burgo e venera a sua Santa devota.
Há gente de todo o género e é uma delícia observar este povo serrano, nas suas semelhanças, nas suas diferenças. É este o povo português – pelo menos uma parte do bom povo português- que a outra parte… Não posso deixar de me recordar do fim-de-semana anterior passado no Porto a assistir, em Serralves, a um bailado de dança moderna de uma companhia de Nova Iorque… uma delícia pela diferença, pela ousadia. Nessa altura, senti-me assim um pouco como provinciana, perante o zoológico de espécies urbanas que me circundavam. Hoje, comparo a simplicidade destes romeiros com a elite intelectual de espectadores e penso que, apesar do abismo que os separa, ambos os grupos são convictos às suas devoções.
Nunca tinha visto tamanha animação no Castelo e em seu redor as “empresárias-do-ramo-de-aluguer-de-fatos-d’anjo” afadigam-se tentando atrair clientes para os seus veludos toscos e flores de plástico e, simultaneamente, vestindo as crianças desajeitadas.
“-Que santinho queres ser, meu menino? Olha aqui este, tem três chavinhas… uma é a do carro, a outra é a da casa e esta, meu menino, é a do Céu”.
Perante tal sábia doutrina cristã recordo-me de outra procissão, longínqua nos meus por volta de 11 anos e em que, cumprindo a vontade da minha avó materna quase após o meu regresso definitivo de África, desfilei pelas ruas empedradas da aldeia.
“-Qual o fato mais lindo que os Senhores alugam?” – perguntava a minha mãe na mais reputada casa do lugar.
“-Temos aqui um de Rainha Santa que é um luxo!”
Pois, tinha de ser esse então… o mais quente, com vestido em tafetá azul claro e dois mantos, logo dois e para quê?, um azul-escuro e outro em vermelho-sangue e rosas e coroa e sapatos brancos a estrear. Em pleno Agosto, mais de quatro quilómetros de procissão, à hora do almoço logo após a missa e eu, esbafurida, bolhas nos pés, os mantos atirados sem decoro para trás das costas, a coroa a badalar nas mãos e as rosas lançadas displicentemente para o primo que seguia ao lado. “- A tua filha não tem modos, Lena!” – dizia a Avó para a Mãe e eu, farta daquilo tudo, que não me dizia grande coisa e só tinha tido graça, ao princípio.
Volto à Lousã!
“-Temos aqui um de Rainha Santa que é um luxo!”
Pois, tinha de ser esse então… o mais quente, com vestido em tafetá azul claro e dois mantos, logo dois e para quê?, um azul-escuro e outro em vermelho-sangue e rosas e coroa e sapatos brancos a estrear. Em pleno Agosto, mais de quatro quilómetros de procissão, à hora do almoço logo após a missa e eu, esbafurida, bolhas nos pés, os mantos atirados sem decoro para trás das costas, a coroa a badalar nas mãos e as rosas lançadas displicentemente para o primo que seguia ao lado. “- A tua filha não tem modos, Lena!” – dizia a Avó para a Mãe e eu, farta daquilo tudo, que não me dizia grande coisa e só tinha tido graça, ao princípio.
Que romaria esta! Com fé de pés descalços e crianças de colo ao colo e tecnologias actuais de máquinas fotográficas e telemóveis a servir de rádio para amenizar o tédio da demora das horas que não passam ou para entreter com um joguito os miúdos já enfarpelados.
Chegam as autoridades! As que são… as que foram… as que virão, porventura, a ser!
É verdadeiramente interessante este “romarejar”… Fico junto ao Castelo… falta-me a coragem suficiente para descer a ladeira e subir até à Ermida para, logo após e de novo, descer a escadaria e trepar a rua íngreme.
Não sou porém a única!
O primeiro morteiro assusta-me… estava concentrada a fotografar. O estrondo é intenso. Há que informar o povo que se deu início à caminhada.
Mesmo à minha frente, as capelinhas recebem o sol de meio de tarde e resplandecem no meio da natureza. Acima, a aldeia de xisto camufla-se na natureza e mais ao longe, ainda, as eólicas surgem na paisagem como os seus mais recentes elementos. Como os tempos, e os homens, transformam as paisagens!
A fanfarra afina os instrumentos e às cinco, quase certas, a imagem da Santa sai da capela e a procissão forma-se.
“- Já aqui venho há cinquenta anos, Menina (“eu!”)… os meus filhos até aos doze anos foram sempre de anjinhos na procissão. É uma fé que eu tenho!”
A ala das opas vermelhas perfila-se… de seguida, juntam-se os devotos com capas roxas… à frente, o estandarte parece uma grande vela de veleiro, ao vento, vogando sobre os oceanos de fé destas gentes.
E, apesar de não ser romeira –na sua verdadeira essência e acepção - sinto-me daqui!
Capto as imagens da procissão a formar-se e a subir afoita a íngreme estradita e parto à sua frente.

É verdadeiramente interessante este “romarejar”… Fico junto ao Castelo… falta-me a coragem suficiente para descer a ladeira e subir até à Ermida para, logo após e de novo, descer a escadaria e trepar a rua íngreme.
Não sou porém a única!
Capto as imagens da procissão a formar-se e a subir afoita a íngreme estradita e parto à sua frente.
O som da banda filarmónica acompanha-me os passos de regresso à vila. Já no Centro, o cheiro adocicado de pipocas e de algodão doce enche-me de uma nostalgia boa e doce, também.
Já dorida dos pés e da intensidade da tarde, regresso a casa e recordo o dia.
terça-feira, 25 de março de 2008
Um mês passado...
Um mês passado e a saudade impeliu-me…a sair ao teu encontro…
Pedaços de ti permanecem no meu coração, no meu pensamento, na minha pele, nas fotos da sala, nos pequenos objectos dispersos pela casa e nos livros, nas nossas conversas diárias…
Porém sei que tu, verdadeiramente, não estás aqui…
Porém sei que tu, verdadeiramente, não estás aqui…
Por isso, tive de ir ao teu encontro, de te procurar, de te sentir…
Fui até ao Norte. Quase três horas de pensamentos solitários, de recordações e divagações em torno do mesmo tema.
Passei fugazmente pelo cemitério, apenas para os outros não estranharem. Uma atitude socialmente correcta.
Tu não estavas lá!
Dois ou três minutos bastaram para confirmar a suspeição.
Por ali, só pedra e terra e flores de três amigas com uma mensagem singela mas sentida.
Por ali, só pedra e terra e flores de três amigas com uma mensagem singela mas sentida.
Por isso, fui à tua procura no único lugar em que te poderia encontrar….
Uma tarja negra cobria o símbolo de pedra dos teus ancestrais em sinal de luto. Por momentos, observei nesse acto dos vivos, uma certa necessidade de afirmação aliada a alguma incoerência… mas apesar de tal, agradou-me a ideia de te prestarem essa merecida homenagem.
Como terias ficado feliz com tal dedicação… afinal, o teu sonho mais grandioso era que todos os teus se reunissem em torno dessas pedras antigas que formavam a tua casa, a tua vida, o teu maior amor.
Tudo em meu redor transmitia beleza e serenidade… um ameno entardecer, luminoso e belo.
Encontrei-te por ali… nessa luz… nessas pétalas… nessas pedras… aguardando tranquilamente por mim, esperando sempre por mim com o teu sorriso complacente, com os teus olhos simultaneamente, paternais e travessos...
Dizias, frequentemente, que um dia te transformarias num dos fantasmas bons de Santa Marinha e eu, nessa tarde, simplesmente acreditei!
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Autoria e Agradecimento
Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.
Todos os direitos estão reservados.
São excepção as fotografias do Feto Real e do Cardo que foram cedidas pelo João Viola. As raras imagens captadas na Net com e sem identificação de autor, encontram-se devidamente referenciadas.
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