quarta-feira, 30 de setembro de 2009

lua cheia...


De qualquer lugar do mundo se vislumbra a lua...
É contemplando-a que alcançamos os olhos dos outros...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Bucólicas...

o papagaio de papel


E
se o meu peito se abrisse de par-em-par
e ele próprio fosse
uma janela aberta ao mundo?

E
se do meu peito rasgado não jorrasse sangue
nem se descortinassem músculos
ou sequer o coração
mas se transformasse, peça-a-peça
num enorme papagaio de papel?

E
se alguém –simplesmente-
cortasse a aorta como quem corta
o cordel do enorme papagaio de papel
em que se transformasse o meu peito?

E
se o meu peito transformado ave
se soltasse em direcção ao céu?
Livre, livre…

sábado, 12 de setembro de 2009

a escola dos meninos perdidos...

é num recanto escondido da serra do Alvão, num (a)Trás (d)os Montes profundo, numa aldeia de que não decorei o nome...
mas a imagem poderia ter sido captada noutra qualquer ou até numa das dúzias de aldeias igualmentes esquecidas que povoam a minha serra da Lousã...
imagens de escolas em terras perdidas de mestres, de meninos, de gente...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

com a torga à cabeça...


Com a torga à cabeça -raiz pesada da urze das encostas da serra do Alvão- a mulher posa para a fotografia. Desinibida e feliz por ser importante para mim.


Naquele preciso momento, faz-me feliz por a registar e sente-se feliz por a acharem bonita -que faço questão de lhe afirmar e louvar a beleza!-.


Os seus traços rudes mostram a crueza da vida e tornam-na perfeita aos meus olhos...


No Alvão, carregando estrada fora a raíz de torga à cabeça -aquela raiz que mais lá para o Inverno aquecerá os seus ossos enregelados com o frio intenso destas paragens- a mulher prossegue o seu caminho, encantada por ter composto o meu bucólico postal ilustrado.


Pssstttt...ó menina... tire-me uma fotografia...

sábado, 5 de setembro de 2009

O Burro Xico...



O Burro Xico mora para ali para os lados de Miranda do Corvo,
no Centro Hípico da Quinta da Paiva...
Se existe criatura à face da Terra com a qual me identifique é com o Burro Xico...
Meigo...
Fiel...
Teimoso... (Tenaz? Persistente?)
Inteligente...
Constante...
sempre burro, todavia...

É certo que não fala, que não pensa
-dizem!-
mas gosta das minhas cenouras e...
dos meus afagos...
O Burro Xico é um amigo para a vida...

O Rapaz da Serra Verde...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

e todo o mundo lá fora...

Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada e, todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

[de Fernando Pessoa, em Ficções do Interlúdio]

domingo, 26 de julho de 2009

notícias de uma nuvem mais a Norte...

























Desejar ser feliz é uma frase-feita que não me serve
Ser feliz não está mais à frente no tempo e no espaço
está aqui e agora dentro de mim.


O que procuro não é a Felicidade…
Essa, encontro-a num dia de praia com amigos de sempre
na imagem que registo da flor singela de beira de caminho
no regato de montanha, na frescura das manhãs,
no sol que nasce na janela do meu quarto e me tira todos os dias do torpor dos sonhos cálidos,
no abraço, agora imaginado, do meu pai ou no beijo de amor da minha filha
num cheiro, num sabor, num toque, num som, numa recordação…
Sou muito feliz em muitos momentos do meu dia.
Encontro-a –à felicidade- por aqui e por ali.
Sou feliz todos os dias, aos pedacinhos.


O que busco é a simplicidade de Ser
um sossego desassossegado
que me mantenha ao mesmo tempo em paz e em efervescência
O que busco é a aventura de saber viver a vida.


As asas crescem um pouco a cada dia que passa
por vezes, esse crescimento dói bastante, choro até, entristeço-me e questiono-me se vale a pena aprender a voar...
se o chão não será, porventura, mais seguro e pacato…

Contudo, decidida saltei para cima das nuvens, tentando fugir de mim, tentando encontrar-me... Tenho andado por aí a vaguear, vendo o mundo do lado de cima e vendo coisas que nunca tinha vislumbrado.

Ando por aí. Fazendo o que sei e o que não sei. Sendo o que sou e o que nunca fui. Tenho aprendido qualquer coisa... em ritmo lento de saborear. Tudo é lento. É lento o olhar, é lento o sentir. Seguro, porém.
Mas, as nuvens ameaçam dissipar-se e já não aguentar o meu peso
e aproxima-se célere o momento em que terei de me soltar no ar e, obrigatoriamente, aprender a voar...

e flutuar no nada (ou no tudo?)
e berrar bem alto sobre o vale verde
e perder todo o medo.

O dia para aprender a voar está marcado.

Porém a aventura de viver
-essa!-
não a sei sentir sozinha!

terça-feira, 14 de julho de 2009

darei notícias... se conseguir...

Adeus
Parto...
agora, à noitinha...
fecho as janelas-que-não-abri,
atiro-me para cima das nuvens e deixo-me ir...

Nada me prende...
já não há sonhos nos sítios onde tenho vivido
e
sem sonhos
tudo perde o sentido.

Sigo caminhos... outros!
não sei quais...
outros caminhos!
qualquer um ...
até onde as nuvens me levarem...
em busca de mim em qualquer lugar.
Noutro lugar.
Caírei, por aí, junto com as gotas mais grossas de chuva...
regarei os campos
e enterrar-me-ei em terra fofa e fértil
criarei novas raízes
e darei notícias,
se conseguir!

Parto agora...
à noitinha...
Adeus

segunda-feira, 13 de julho de 2009

ao meu jeito (4)... ao jeito da própria vida?

«Pelos vistos, tudo o que acontece na vida obedece a um cronómetro invisível: não se pode "decidir" com um minuto de antecedência, mas só quando as coisas e as situações decidem por si mesmas... Tudo o mais é forçado, insensato, desumano, talvez mesmo imoral. A vida decide, maravilhosa e surpreendentemente... e, então, tudo se torna simples e natural.»
Sándor Marai

ao meu jeito (3)...

domingo, 12 de julho de 2009

há dias que não sei...


tTento (es)forçadamente ser racional!
tento viver os dias sem sonhos!
mas sinto...
continuo a sentir...
cada dia que não sonho
é um pedaço de mim que deixa de ter sentido...


mas valerá mesmo a pena sonhar?
ou paga-se cada ilusão com fôlegos da própria vida?


sábado, 11 de julho de 2009

o "mar" mesmo aqui ao lado...

Tentando criar raízes na serra, sinto que o mar chama por mim muitas vezes…
Sou uma mulher que nasceu e cresceu junto ao mar...

O mar acalma-me e tranquiliza o meu espírito em eterna ebulição…
Porém, este dista duas horas -bem contadas- da minha serra e chegar até ele em dia de fim-de-semana é violento, isto é, se quero sentir os primeiros raios que não me deixam a pele tisnada…
Por isso, opto pela “praia” das Rocas, aqui bem ao lado e que me permite um marejar a quinhentos metros de altitude -bem medidos-.
O dia passa-se… as crianças distraem-me…
quase me esqueço dos dias, que ficam ali ao lado, do outro lado da serra…
Acabo por ficar com pele de índia -não obstante a permanência debaixo do chapéu ‘made in spain’ e do factor 50 do protector solar-.
Apesar do ardor, o avermelhado amansa o ar habitualmente meio ensonso da minha quase total brancura.A imensa piscina das Rocas está enquadrada no meio da vila e esta no meio da serra…
a frescura da água recorda-me que a Ribeira de Pera é a fonte permanente da praia, numa corrente que vem directamente do cimo da montanha… Hoje, a praia apesar do calor intenso está tranquila, longe dos dias de imensidões de banhistas e veraneantes.
No alto de Santo António da Neve, o Encontro dos Povos Serranos distrai o povo da opção balnear. Ainda bem… as centenas de pessoas que, mesmo assim, languidamente se esticam ao sol, não são em número suficiente para me acossar o espaço e a intimidade.
É bom chapinhar por ali, quase ao despique com os pássaros que passam o dia a fazer voos rasantes e, mergulhar nas ondas mais alterosas criadas por equipamento sofisticado importado expressamente de países nórdicos (!!??)… E apesar do “mar” das rocas ser uma espécie de sucedâneo do mar autêntico, o dia é agradável e, por horas, quase me esqueço do verde e mergulho no azul.

domingo, 5 de julho de 2009

O Tesouro!

a manhã foi extraordinária...

arrancada a um sono já ligeiro, o desafio surgia ao meu ouvido...
"vamos andar?"...
fomos... com o mesmo jeito, com o mesmo estilo...
manhã fresca e cinzenta...serra acima...
o passo lento inicial assumindo uma marcha firme, após...
o som da música a cadenciar-nos...
e ao longe, o nosso castelo a surgir -encantado!- por entre a névoa, enquanto um ténue chuviscar não nos demovia do intento de avançar pelo percurso definido...

[[nestes momentos, os laços apertam mais um pouco...
num aperto que não magoa, nem sufoca...
a amizade consolida-se -nestes instantes- e torna-se ela própria fundamental aos dias...
pelo caminho, de tudo um pouco... o estar e o ser, o pensar e o querer, num conjunto de cumplicidades que são só nossas...]]

os leves chuviscos tranformam-se em chuva...
molham-nos o cabelo, a roupa...
brincamos com a situação...
sentimo-nos deusas do tempo...
purificamos a pele e a mente...
está calor...
e no meio da nossa natureza
-que ousamos perturbar na sua perfeição-
descobrimos as pedras preciosas,
gentilmente depositadas em toda a sua simplicidade e esplendor por sobre as folhas do caminho...
a natureza tem formas subtis de nos dar respostas!!!



Autoria e Agradecimento

Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.

Todos os direitos estão reservados.

São excepção as fotografias do Feto Real e do Cardo que foram cedidas pelo João Viola. As raras imagens captadas na Net com e sem identificação de autor, encontram-se devidamente referenciadas.