domingo, 25 de janeiro de 2009

O perímetro da minha serra…







Para alcançar a profundidade e importância do detalhe, devemos de quando-em-quando saber distanciarmo-nos um pouco do nosso objecto de referência e de reverência, observando-o, de longe, no seu todo.
Foi o que fiz neste Sábado.
Distanciei-me das particularidades da minha serra, dos seus detalhes que aprendo a reconhecer e, às vezes, a conhecer até quase ao limite do que é e do que representa e, perdi-me, como tantas vezes faço, numa incursão solitária na ânsia de saber um pouco mais, de lhe entender o passado duro e o futuro mais incerto e árduo ainda. De compreender o conflito das pessoas em constante dúvida da razão do seu ser e do seu viver nestas terras que já ninguém quer. Gentes e terras em permanente questionamento se viverão, se existirão por mais uns quantos anos, por mais um que seja, até definitivamente desaparecerem sem que ninguém se aperceba porque é que simplesmente existiram… recordadas porventura, tão e somente, por terem feito parte de um mapa da interioridade deste país que é o nosso.

Procurei a minha serra, contornando-a por fora, medindo-lhe o perímetro com o meu olhar… não a perdendo de vista… tomando a jeito a sinuosidade do rio que lhe faz fronteira a sul…
Chovera a noite toda, deixando-me em sono sobressaltado na ideia de não poder cumprir o que determinara… Porém, amanheceu o dia, soalheiro quanto baste, não me permitindo deixar de viver o destino que previamente determinara.
Até ao Cabril, apenas cumpri os quilómetros de estrada, tentando espaventar o sono da noite mal-dormida… o olhar ainda turvo em função mínima de se manter atento à estrada.
Chego ainda cedo à grande represa feita pelos homens que estanca o rio e o divide entre concelhos e distritos. A perplexa constatação do baixo nível da água a contrariar os dilúvios das últimas semanas e a deixar as margens descarnadas e sem beleza. Prefiro fixar o meu olhar no outro lado, onde o Zêzere ainda corre lá bem abaixo, lá bem ao fundo, saltitando entre margens próximas.
Subo uma vez mais a Nossa Senhora da Confiança, local privilegiado para um olhar demorado sobre a albufeira. Tudo o que a minha vista alcança abrange a serra. Esta, espraia-se em vales e ergue-se em pequenos e modelados píncaros… num sobe e desce a fazer-me imaginar a espinha dorsal de algum colosso pré-histórico….
O vento gélido espanta-me o olhar e resguardo-me junto à Capela, observando a fé dos homens simples transformada em ermida de cimo de monte.


Passo, sem parar, pelos medronheiros que, em outros tempos mais estivais, me atiçaram os sentidos com o seu aroma, a sua cor, o seu paladar intenso. Agora, os galhos hibernam ainda e resguardam-se do tempo frio. Apenas o cabrito que saltita afoito na erva apetitosa me solta vã tentativa de comunicação.


Pedrógão Pequeno é logo ali à frente. Encantam-me as suas ruas ladeadas com o casario bem proporcionado, uma igreja e um adro preservados, um conjunto de casas solarengas abandonadas mas que me provocam evocações às histórias do romantismo clássico… ando por aqui e por ali, colho imagens como se colhesse um ramo de silvestres flores e aproveito o dia para me encher de sol e de ânimo e da alma (quiçá meio-assombrada!) destas paragens.

O caminho calcetado e recortado pelos muretes reconstruídos entre a vila e a ponte filipina surpreendem-me mas não me deixam saudades… no ziguezaguear da estradita que conduz até à margem do rio, deparo-me com derrocada de pedras e árvore que me obrigam à aventura de recuar com a viatura às avessas nesses contornos de curvas e contracurvas e a frustração de não alcançar a água e a velha ponte.
Depois da perícia, regresso à proveniência.

Não sei para onde siga… lanço convite a amigos que moram por estas bandas, para partilhar o almoço frugal que trouxe comigo. Não será desta, porém.

Ao cimo da terra opto por seguir a estrada que o meu mapa me indica como contornando o rio. Meto na cabeça que comerei a sanduíche olhando o rio de perto. Por isso, viro para o lado esquerdo e sigo.

Não por mais de dois ou três quilómetros… um olival chama por mim… olho para o lado e sinto-o a seduzir-me com o sol a resplandecer nas folhas espetadas, o som de um riacho a fluir por ali… descubro cogumelos e árvores com bagos de que não sei o nome.

Passam carros que buzinam… sorrio com a ideia das pessoas estranharem alguém andar por ali, a pé, empunhando uma máquina e fotografando algo que elas próprias se desabituaram de olhar e de ver.
Sigo caminho, apesar da hora de almoço já ter passado há algum tempo, insisto no propósito da água ao fundo da minha paisagem.
Em Madeirã, surpreendo-me com o cuidado e esmero dos espaços públicos da povoação, com a sua dimensão, apesar de perdida assim no meio do centro do país.

Falo com as pessoas da terra “como chego ao rio?” e estas solícitas a quererem levar-me lá “o seu carro passa, menina, mas se está com medo eu levo-a lá na pick-up da junta”, “vá à confiança que ele é o presidente”, dizem as velhotas sentadas à lareira no café enquanto argumentam que gostam muito de Mozart e de Beethoven por conta de um concerto de uma sinfónica que toca o My Way de Sinatra ou de Aznavour , não sei bem, num programa de televisão… agradeço as informações, afirmo que não tenho medo se me afiançam que o percurso está em boas condições e avanço no propósito das águas do rio e do almoço que tarda.
A confiança releva-se acertada e consigo uma ida-permanência-e-vinda sem sobressaltos que não o contorno sinuoso e o brilho do rio nos meus olhos. Fico feliz com esta imagem que perdura até alcançar a seguinte que me extasia…

A estrada contorna o monte e eu perscruto no meu horizonte, em todo o seu comprimento e volume, o esplendor da minha serra no seu todo. Não fora a névoa e eu alcançaria ainda mais longe que o meu próprio olhar.

São bonitas de se ver estas terras que formam o concelho de Oleiros, com socalcos da erosão dos ventos e arbustos rasteiros de tojo e urze (ou já resultado também da erosão causada por desvastes cíclicos de incêndios?). Um pouco por todo o lado, na crista dos montes, os moinhos de vento do século vinte e um desafiam as alturas e recolhem em si a energia que flui tão generosamente com o vento. Alcanço o Alto do Cavalo. Seguramente é a primeira vez que passo por aqui e estranho que assim seja. No fim do caminho ainda a indecisão de qual o percurso… à beira da estrada um rebanho de ovelhas pasta calmamente sob o último raio de sol da tarde.

Opto por ir até à vila sede-de-concelho que nunca visitei… É um burgo tranquilo, que não tem ao primeiro olhar grandes pontos que me atraiam, que não essa simplicidade de terra de interior que vive com o que tem e como pode.

A igreja chama por mim e encontro um templo de exterior simples mas acolhedor e com um interior fantástico e perfeitamente recuperado. Pedindo desculpa pelo quase ensurdecedor som do flash da minha máquina a uma senhora recolhida na sua oração, acabo por conhecer a história recente da igreja… “sabe, menina (sorrio mais e uma vez por este ‘menina’ que por vezes me concedem e que docemente me toca no íntimo cada vez que o proferem), a igreja ardeu em 2003” afirma Dona Aura num tom sussurrado para não importunar o Altíssimo. E continua “lá fora, haviam três frentes de incêndios que ameaçavam a vila de Oleiros… aqueles quintais, ali à frente, arderam todos… a árvore centenária que lá está fora, não sei se viu (afirmei-lhe que sim), a árvore com o calor incendiou-se sozinha e pegou fogo ao altar”. Continuo, afirmando que pensara que tinha sido obra de vândalos e lá vou ouvindo a história em tom de segredo e cumplicidade “… o senhor padre ficou muito afectado… mas agora o altar foi todo recuperado… 60.000 contos, menina. Em contos! Não em euros.” “Foi uma desgraça para a igreja e foi uma desgraça lá fora para o povo. Ardeu tudo! Só não ardemos nós!”…

Admiro cuidadosamente o templo e fico feliz por o registar na minha memória. Lá fora, o sino badala as 16 horas em quatro pancadas certeiras em contraposição com os ponteiros que a cada lado da torre ora assinalam as dezasseis e dez ora as dezasseis e quinze… realmente o tempo é sempre algo muito relativo!

Neste deambular sem hora nem caminho marcados, duvido mais uma vez de qual o trajecto a seguir… no café no centro da vila, o dono -senhor que de tão baixinho me faz sentir quase uma figura de Adamastor- admira-se de eu procurar locais para visitar “por aqui não há nada que se veja. Se já foi à igreja, então já viu tudo!”. Não tendo como retrucar ou contrapor ouso perguntar já sabendo de antemão a resposta “E então, para seguir para a Pampilhosa da Serra, acha que vou por Janeiro de Baixo ou por Álvaro?”… “Jesus!!! por Janeiro de Baixo???!!!”.
Bem, perante tanta veemência sigo mesmo por Álvaro, não tanto por não considerar o outro trajecto mais aliciante mas por conta do pouco dia e da muita vontade ainda de ver o rio com luz.

O dia ainda me reserva a povoação de Álvaro. Não me arrependo… a aldeia prolonga-se em espinha numa crista semi-curvada do monte… começa num alto, alonga-se em linha arrendonda para se erguer de novo na outra ponta… é uma povoação encantadora, com casas recuperadas ora pintadas de branco ora cobertas de xisto.
Saio junto ao parque de estacionamento para a contemplar neste fim de tarde… mais uma vez sou interpelada por uma senhora já de certa idade “isto é tão feio! Vai tirar fotos, menina?” e continua perante o meu assentimento “se eu fosse nova, abalava! Isto agora são só velhos! Não há nada!”. Ela a dizer que a aldeia é feia e eu a achá-la tão bonita. “Então e o nome da ribeira ali em baixo?” “Ah! O nome da Ribeira? Não sei!”. A viver toda a vida junto à ribeira sem lhe saber o nome e não fora eu perguntar e o João “deixe que eu pergunto ao João (e em tom de confidência) um ‘moço’ da minha geração que me arrastava a asa”, responder que era a Ribeira de Alvelos e tamanho enigma ficaria para desvendar mais tarde com recurso às novas tecnologias do Google, que põe cada canto do mundo no mapa mesmo que às vezes nem os próprios cantos saibam que existem e têm um nome. Deixo Álvaro com pena de não me poder perder por aqui. É quase noite, ainda contemplo o Zêzere aos pés do povoado.
Mais uma vez olho e sinto a minha serra que surge como altaneiro santuário num crepúsculo de contornos suaves…
Sigo caminho por estradas do concelho da Pampilhosa da Serra, um pouco já a sentir no coração e no pensamento o peso da solidão excessiva e guardo em mim o dia.
Aprendo a importância de olhar o ‘longe’ como forma de entendimento do ‘perto’.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Entre quem é !...

Quem é por bem, que entre!
Quem traz sorrisos, que entre!
Quem me quer bem, que entre!
A quem quero bem, que entre!
Quem quer dar, que entre!
Quem quer receber...

que entre, também!
Quem é! Que entre!
A porta está aberta…
Entre quem é…

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Quase nada para contar…

Olho para trás…
365 dias antecedem o dia de hoje…

Inevitavelmente, recordo-os…
quase um a um…
os dias bons
os dias maus
os terrivelmente maus
aqueles sem qualquer história especial…

Observando bem a primeira parte do meu ano
saltaria de bom grado, afoita e veloz, a linha da minha vida
assim à laia de regato que se ultrapassa de uma assentada só
não se desejando molhar o pé na água gélida…

porventura serei injusta…
quantas manifestações de carinho ou simplesmente apreço perderia
quantas vivências, experiências, cumplicidades, descobertas…
ou apenas o processo de reaprender a ser…

Evitaria porém
o sofrimento atroz de quem se ama
a dor da perda
a tristeza e a solidão dos dias
as palavras justas ou injustas que se ouviram ou proferiram
as ideias mal formadas, as dúvidas, as inseguranças, os insucessos…

Olho para os 365 dias que antecedem o dia de hoje e,
não conseguindo de todo evitar,
balanço sobre os tempos mais ou menos longos, mais ou menos breves
num limbo desconcertante ou
talvez
numa espiral que rodopia incessantemente e me deixa afogueada

O que senti?
O que mudei nos outros?
O que fiz?
De que gostei?
O que recebi?
O que mudei em mim?
Como me dei?

Faço um balanço e tento descortinar um momento verdadeiramente bom nos 365 dias do meu ano
um momento único
meu, só meu

De tão simples, quase nada para contar!
O silêncio dos homens… os sons da natureza vibrante e envolvente…
A escuridão quase total, também…
O calor acolhedor…
A tranquilidade…

E sobretudo a paz, quase palpável de tão presente!

Olho esse momento breve com olhos de saborear…
Senti-me quase feliz nesse momento fugaz,
tão leve… sem pressões no coração,

sem pensamentos duros, sem mágoas…
leve…
tão leve de tudo…menos
do silêncio dos homens,
da escuridão envolvente,
dos ruídos da natureza,
do calor e

da partilha do próprio momento…
tão leve de tudo
talvez até, de nada em especial!

Olho os meus últimos 365 dias e elejo um momento que
de tão simples, tão singelo
quase nada para contar!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Montes de Sonhos!

Mesmo que recue ao mais recôndito da minha memória,
não me recordo de alguma vez sequer
–chegada a época das luzes e da euforia,
do amor apregoado aos molhos e
da alegria e paz dos votos que se desejam e anseiam-
não me recordo uma vez sequer de não ter feito a árvore de Natal -carregando-a de cores e de esperanças-,
de não ter colocado as figuras no meu presépio -numa manjedoura improvisada de uma caixa velha bem coberta de musgo para disfarçar-
ou colocado, ainda, a estrela luminosa na janela da sala como que a alardear ao mundo a ditosa ventura de interiorizar e assumir o espírito da época.


Entre novos conceitos que por aí despontam em torno do “Christmas Blue”, o esbaforido das pessoas em stress, as músicas alusivas repetidas à exaustão nos supermercados, a obrigatoriedade das prendas ou dos sms, dos votos e de toda uma parafernália colorida, barulhenta e a maior parte das vezes oca, o facto é que não consegui assumir –e na verdade, nem sequer me apeteceu!- os ícones natalícios e os simbolismos habituais
(e até porque na casa dos pais o Pai Natal assentou arraias !!!!)

Ao invés, troquei as bolas coloridas da árvore pelas pessoas que me rodeiam, as luzes das gambiarras por gestos e carinhos meus; as imagens do presépio pelos meus próprios sentimentos e jeito de ver e sentir as coisas… optei por isso… por fazer deste tempo de Natal, um tempo mais cheio de mim para os outros. Quer os outros entendessem ou não o sentido!
Não, este ano não fiz a árvore de Natal!

Mas fiz sonhos!
Duas montanhosas taças de sonhos fofos e, doces da calda gomosa e suculenta com suaves toques de paladar a limão e a laranja e a canela e a muito açúcar.
Sonhos idênticos aos que -desde sempre- faziam a Avó Glória resplandecer de cobiça e desejo ou o olhar do Francisco transformar-se em olhar de criança rabeta e gulosa que à socapa rouba o doce predilecto.
Que faltasse a árvore...

que faltasse o presépio,
mas que não faltassem os sonhos! Mesmo que os braços, as mãos e os nós dos dedos ficassem doridos na tarefa de sovar a massa ainda quente ou de incorporar os ovos viscosos.
No meu Natal houve uma lareira a encalorar o corpo e sonhos a adoçar a boca e a aquecer o coração…
Montes de sonhos!

sábado, 13 de dezembro de 2008

A minha própria citação ou “quem não se sente não é boa gente…”

Fico na dúvida de qual o título a dar a este arrazoado de palavras que, porventura, só fará sentido para alguns…

“Ser capaz de mostrar aos outros a sua própria alma, o seu próprio âmago é um acto de coragem, de inteligência e de respeito”.




Se eu afirmasse que a autoria desta frase era de fulano ou de beltrano, entre filósofos e humanistas que povoam as nossas estantes da sala, teria certamente captado leitores atentos e ávidos de seguirem o meu raciocínio até ao final desta mais ou menos breve dissertação em formato de mera anotação.

Infelizmente, a frase não é de ninguém importante, é somente uma ideia minha que à laia de citação encaixa no espaço de vinte e quatro palavras, o formato quase ideal da minha própria essência e do fio condutor da minha vida, enfim uma verdade ou uma semi-verdade –depende do grau de coragem, inteligência, respeito ou simplesmente delírio emocional- em que acredito!
Trata-se meramente de uma frase feita quase que assim “às três pancadas” como por aí se diz na gíria do dia-a-dia, que serve para demonstrar que as citações tanto podem dizer muito, ou tudo, como podem não dizer absolutamente nada, podem apenas contextualizar ou podem até servir os propósitos de quem não tem capacidade para criar as suas próprias.
Tendo por base estes pressupostos desta já extensa introdução, avanço…

Hoje (que é como quem diz, porque o hoje já foi ontem e ontem vivi e senti e hoje escrevo o hoje de ontem), hoje estive num local onde uma centena e pouco de pessoas evocavam (ia escrever ‘partilhavam’ mas ocorreu-me que pudesse ser uma palavra excessiva e, no contexto, quase ofensiva), evocavam, dizia, o final de um longo período de década e meia em que trabalharam em conjunto em prol de um objectivo –ideal?- comum. Um período em que conheceram as suas terras e trabalharam para as gentes dessas terras, dedicando-se quase a uma espécie de causa com muitos contornos de missão. Enfim, essa centena e pouco de pessoas culminavam o fim de um ciclo de muitas vidas e projectos, de ideias e trabalhos, de desilusões e compassos de espera, de sonhos e estímulos, de dificuldades e perseveranças, de feitos e fracassos.

Ali estava eu, ouvindo quem tinha alguma coisa para transmitir e houvera sido convidado exactamente para esse efeito e mal continha as lágrimas, expressão simples de quem sente por dentro as emoções das coisas e das situações.

Eu, ali, a morder os lábios roxos de frio –ora o superior, ora o inferior- e a fazer um esforço e um esgar sobre-humano que me deformava as feições para conter a minha persistente espontaneidade, sentindo-me tola e fora de contexto.

Falavam uns com a certeza das coisas lúcidas, outros de como e de quando começaram a perceber o sentido das coisas, outros a afirmar que o sentido das coisas tinha de ser reequacionado, outros ainda a dizer que coisas novas despontavam no horizonte e eu, a olhar em volta e a ver os lugares vazios ali ao lado…

e eu, a ocupar os lugares vazios com pessoas que deveriam ali estar obrigatoriamente, cuja presença daria, decerto, mais sentido e alma às próprias coisas;

e eu, a não compreender porque os presentes banalizavam o momento;

e eu, a magoar-me com a teimosia das minhas lágrimas que me ameaçavam com a sua puerilidade ou susceptibilidade ou sensibilidade ou mera estupidez ou como lhes queiram chamar que afinal vai dar tudo ao mesmo;

e eu, a pensar se o certo desdém ou troça com me rodeavam seria um apurado disfarce de sentimentos ou um aturado empedernimento da própria vida ou uma indiferença ou um cumprir de calendário e obrigações ou um deficit de inteligência emocional ou o quer que fosse… afinal como diz o povo “quem não se sente não é boa gente”…

e eu, a continuar a olhar em volta e a sentir o vazio das cadeiras e o sentido diferente que impregnariam às coisas, se estivessem ocupadas por uma Rosário, uma Ana ou uma Maria, por um Francisco ou pelo João, por uma Paula, pelo Luís, por um Samuel e por um Camilo, pelo Henrique, pela Ana Paula e pela Cristina, por tantas mais pessoas que também fizeram parte dos anos, dos meus anos e que, de alguma forma, fazem parte ainda. Tanta gente que devia ali estar e encher a sala e contribuir para que o momento fosse ele próprio simbólico, com significado, com sentido! Sim, a sala deveria estar cheia de emoção.

Hoje, estive num local efectivamente cheio de gente, gente conhecedora da vida e dos meandros das políticas, dos mecanismos, dos processos. Gente muito madura, de ideias firmes e fartas, a rebentar de definições, realizações, concretizações, certezas e sabe-se lá que mais do mesmo teor mas, essencialmente, estive num espaço de gente sem emoção, quase banal na sua forma de estar no mundo.

E, no meio de tudo isto, já no meu próprio limite de resistência emocional, entre a beleza gélida do local e a frieza do evento, o toque de diferença que permitiu manter a minha sanidade e a minha sempre renovada fé nas pessoas e nos meus próprios valores, surgiu em forma de três abraços.

Obrigada Manuela! Obrigada Jesus! Obrigada Aida! pelo vosso abraço apertado, sentido e carinhoso e por terem tido a coragem, a inteligência e o respeito de partilharem comigo a vossa tristeza, da qual também comungo.
Foram vocês que deram sentido ao meu dia!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

a vida é ali à frente...

É como se eu estivesse num miradouro…
-tentem ver com os meus olhos, conseguem?-
Num plano alto sobre a vila,
ou sobre o vale…

É como se eu própria fosse o miradouro…
e a paisagem, ali à frente…
logo abaixo…
fosse a minha própria vida!

Contemplo-a… sem devaneios!
Assim como que pairando sobre ela…

A vida é ali à frente…
Quase a toco…
Quase!

De tanto a contemplar
começo a sentir uma certa violência a crescer dentro de mim!
Talvez apenas uma espécie de violência…
ou talvez apenas energia…
ou fúria...
eventualmente delírio!


Porventura, uma vontade de abanar o mundo
ou, talvez, apenas as pessoas
... apenas a mim própria!
Não sei bem, ainda!

Apetece-me gritar até o coração saltar para a boca
-figurativamente, claro! Não se choquem as almas mais sensíveis-
e fique à vista de todos.
Para que se apercebam, de tão evidente, de tão óbvio…
que é rubro
palpita de sangue e de vida
pulsa e
impacienta-se
tão-somente
em ser feliz!

sábado, 6 de dezembro de 2008

sem máquina fotográfica à espera de um milagre…

Lisboa…
Passo dois dias na cidade grande, que conheço de cor, ruas palmilhadas vezes sem conta em vidas de outrora.
Sinto-me bem nesta cidade! Gosto do seu fluir, da diversidade humana que se cruza e entrecruza em quotidianos fervilhantes.
Sinto porém um quê de provinciano em mim em cada vinda.
Serrana assumida, a cidade grande surge apenas em fins-de-semana familiares para périplos culturais ou por obrigações profissionais, como é o caso.
Ultrapassadas estas, ouso permanecer mais uma noite contornando a rotina dos dias.
Porém, passada a euforia da decisão, cambaleio em dúvidas.
O serão decorre intranquilo e sem facilidades. É quase obrigatório partilhar o passado recente e este surge sofrido e duro. À minha volta pessoas sorriem, gargalham antevendo o fim-de-semana longo em noite que se espera de formato “king-size”.
Apesar da hora tardia que regresso ao hotel, a noite arrasta-se e pela manhã, bem cedo, encontro-me em frente ao rio, ansiando por um milagre que dê sentido ao momento, quem sabe? à própria vida.
O dia nasceu cinzento e as nuvens adensam-se num tom-sobre-tom do antracite ao cinza claro… no horizonte, descortino a custo onde termina o céu e começa a água. É uma manhã tranquila esta com que me deparo. Turistas passeiam por ali, senhoras de meia-idade caminham energicamente na calçada falando sobre os presentes de Natal, jovens atléticos percorrem o espaço em bicicleta num esforço contínuo de se manterem vigorosos e com ar viril.
Apesar do fervilhar da cidade grande que pressinto nas minhas costas e de ser constante a zoada de fundo, paira junto a mim um certo silêncio tranquilizador.
Um barco na doca parte ao som de uma sineta insistente para um passeio pelas margens do rio. Ouço risos alegres de quem está a apreciar a pequena aventura. A maré no seu eterno ciclo de ir-e-voltar, lentamente leva, por umas horas, a água do rio para o mar.
Quase chove…
Uns acordes de guitarra soam. Por detrás de um pilar um jovem dedilha e exercita insistentemente uma determinada composição, que não consigo identificar. Faço dessa melodia a minha própria melodia.
Sinto a falta da minha máquina fotográfica, extensão da minha mão e do meu olhar, que capta e regista os detalhes que irão mais tarde ocupar os meus vazios.
As horas que me separam da segurança pacata dos meus dias passam lenta mas decididamente.
E o milagre acontece…
pequeno mas sublime…
do céu, escuro e denso, por alguns minutos apenas, um minúsculo raio de luz incide directamente sobre mim acariciando-me os cabelos, aquecendo-me o coração…
e eu, finalmente, deixo de me sentir só.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

ponto final (.)

duas semanas após, é tempo de um ponto final.
a realidade está -definitivamente- instalada!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Diário de Viagem 7... linhas de vida...

Diário de Viagem 6... olho em redor

olho em redor e, às vezes, piscas-me o olho...
e eu,
recordo o teu ar
travesso
de miúdo
desalinhado...

Diário de Viagem 5 ... a passagem secreta...


é só estar atenta
e, se olhar bem
-com os tais olhos de ver, bem longe, bem fundo, bem por detrás do óbvio-
encontro por ali,
por aqui,
passagens secretas que me levam para lá do tempo...
para lá do quotidiano...
para lá daquilo que sou...

interregno... para supremas dúvidas nos meus pacatos dias!

"eu te busco e não te encontro (...)
e tu, sem saberes que, da minha alma, deténs as rédeas!"
Platão

As pessoas têm tempo para tudo!
-menos...
para mostrarem que gostam umas das outras!
e
-muito menos...
para o demonstrarem!

Que necessidade esta
-constante!- de me fazer importante
e de fazer os outros fundamentais?
assim num troca-que-troca de cumplicidades...

Suprema e constante dúvida nos meus pacatos dias!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Diário de Viagem 4... Há poesia nos meus cogumelos...


Mesmo no outro lado do mundo -um oceano de permeio!-
encontro esses seres de floresta encantada,
no meio de humidade e de calor de mata luxuriante... e,
já menos surpreendida,
descubro e capto, uma vez mais, a sua poesia...

Autoria e Agradecimento

Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.

Todos os direitos estão reservados.

São excepção as fotografias do Feto Real e do Cardo que foram cedidas pelo João Viola. As raras imagens captadas na Net com e sem identificação de autor, encontram-se devidamente referenciadas.