sábado, 29 de outubro de 2011

Outras Palavras!

Esquece a forma como escreveste até ao dia de hoje. Esquece o que não és. Deixa para trás as palavras usadas, coçadas pelo desgaste, sempre as mesmas, a rodear o que tem sentido para os outros, mas deixou de ter sentido para ti. Deita-as fora! Às palavras. Agarra o que for que pressuponha novas imagens. Deixa de lhes ser servil. Para tal, conjectura largar também a pele, a tua pele. Arranca-a. Aquela com que teimas, repetidamente, revestir sem novidade as palavras, as frases, as histórias. Esquece os vocábulos velhos. Permanecem belos mas estão gastos, enfartam já o estômago que existe no pensamento de todos os leitores, deixando-os com azia da comida repetitiva de paladares e olfactos e com fluidos biliares acidulados que obrigam a pastilhas que impeçam indigestões cerebrais. Larga tudo. Provoca um motim dentro de ti e escreve para além do que sentes e observas. Deixa de fazer o agradável, o airoso, o gentil e todos esses adjectivos adocicados com que revestes as palavras para as tornar supostamente felizes e soalheiras. Sai de ti, do teu olhar, do teu timbre, do teu cheiro, do teu paladar, do teu toque. Escapa a esse cativeiro a que, por vontade própria, te subjugaste. Esquece. Sai. Só assim principiarás, com efeito, a aventura, uma outra. Provoca-te. Incita-te. Estimula-te à descoberta. Escolhe outras palavras!

dobrada ao vento...

Eu! (2).....monopolicromática


A Marca (1) e (2)


domingo, 23 de outubro de 2011

e eis que regressa...



O GRITO

O GRITO
revolve-se transtorna-se ensandece
O GRITO
que cerrado no silêncio negro de uma solitária interior rasteja num vai-e-vem de
esgar contido e ensurdecedor para-cá-e-para-lá desorientado exaltado
O GRITO
- um só -
que potenciado e elevado aos decibéis mais incomportáveis do silêncio
desvairado enlouquecido trepa ao  avesso da boca procurando
- em vão -
a chave que  lhe poderia abrir os lábios à liberdade  


Tela: O GRITO
deMatos



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

eu...














































Não me perguntem mais porquês ...

dou as respostas que consigo!

Eu
Apenas!

                 na transparência e na opacidade
                 na leveza do olhar e do sonho
                 e
                 na corrente que me agarra ao chão



sábado, 15 de outubro de 2011

à porta...



bateste à porta…
à minha porta
abri-te a porta de casa
abri-te a minha casa para ti
abri-me para ti

ficaste, ali…
à soleira
contemplando-me em ávido desassossego
querendo desesperadamente entrar


cumprimentámo-nos
à porta

e te fiz as honras, entra…
porém…

porém…
num sôfrego sufoco ficaste à porta
e,
da porta
e da porta... não passaste.


Texto:
a vez de Laura!!...
- Laura abriu as portas de sua casa, mas Tomás, contidamente, apenas permaneceu na soleira -
(um excerto de qualquer-coisa-que-vai-nascendo-por-aí....)



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

a rosa-dos-ventos…


rabisco um adeus na alvura da folha

reescrevo-o com letras mais seguras, daquelas moldadas em estatura e
que, em forma quase militar,
nos obrigam a bater a pala em regra de respeito
ADEUS


[não é uma adeus sólido, convenhamos…
apenas um adeus relativo…
ausente, se possível, de lamúrias, deixando espaços presentes nos dias para os ‘olás’ acertados e para as manifestações orientadas por manuais e códigos homologados]

rabisco de novo um adeus
permito-me, pela última vez, a uma palavra desenhada com letra redonda, cheia de ternuras contidas e insatisfeitas…
momento fugaz de suave despedida solitária.

Decido-me, todavia, a uma atitude!

regresso, pois, às maiúsculas determinadas, engrossando o contorno das letras
ADEUS
Sublinho-as ainda em determinação convicta, por ora…
ADEUS
e complemento-as com um advérbio
determinante quanto baste para fazer jus à decisão
ADEUS MESMO


O meu ser já não comporta mais…

por isso, profiro um ADEUS palpitante, sonoro, gritante, que me ensurdece a mente
e,
prossigo o caminho…

O meu ser já não ousa compaixão…
deixa a parte doente de si para trás…
(a que sente e se magoa, constrange, perturba, sofre frágil e vulnerável, a que dói)

...que fique para trás e padeça sozinha na beira da estrada…
ADEUS a essa parte de mim...
a essa metade que não me serve com devoção cega…

Prossigo.
Parto.
É esse o rumo!
Assim o determinou a rosa-dos-ventos!



Imagem da autoria de MRP
Maria Cascão

dark light (in)side

pisámos um risco
qualquer,
subtil, ténue, despercebido
um risco imaginário
da fronteira da nossa
escuridão interior
e, agora...


e agora que saboreámos
o avesso de nós próprios

e provámos o sabor
de cada um no outro
fomos marcados com
esse sabor de saliva e plasma
e, agora...

e agora que nos perdemos
(e nos encontrámos)
um no outro
sem retrocesso,
um qualquer retorno, solução,
ou desvanecimento
o escuro envolveu-nos
e tomou-nos como seus

e arrebatou-nos
enlaçou-nos
um escuro quente
fluído
num calor de breu
e seiva que
acalenta
alvoroça
assombra
entontece
instiga
alivia
engrandece
sacia
e, agora...


e agora que nos perdemos
dentro um do outro e que
ultrapassámos um
limite qualquer
subtil, ténue, despercebido e
sem retrocesso possível
encontramo-nos
enfim!
em nós
e, bem cá dentro dos
nossos seres
resguardados na
mais profunda escuridão
sentimos
e somos
LUZ

inspirações em torno da
tela: O Corpo 
deMatoscolecção particular

sábado, 1 de outubro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011

Febre

Estou febril.
Sinto-me febril.

Reconheço bem esse estado, não propriamente rotineiro mas suficientemente habitual para o topar de ginjeira e lhe perceber as manhas.

Febril de temperatura, que me deixa a pele inusitadamente fresca embora eu lhe (pres)sinta arrepios, assanhada em picos de poros e pelos.
Febril de ideias que me sacolejam a mente, a perturbam ao limite da sanidade e a estimulam em córregos fluentes. Ideias que, soltas, correm pelos imaginários regatos de pensamentos, quase-rios, deixando-me as veias a arder com a sua revolta agitação.


Há dias em que pensar me cansa, assim como sentir me cansa, também. Enfim, é a própria vida que me cansa e desgasta. Cansa-me a vida e cansa-me esta febre… uma febre de sentidos intensos e fartos e de enrodilhados vazios, que me deixam em perplexidade de não saber se estou completamente cheia de nada ou completamente oca de tudo…


Estou febril. Sei isso!









Diário de Viagem (4).... o peixe para o almoço...

Diário de Viagem (3)... o outro lugar

Diário de Viagem (2)... é o mar que nos alimenta...

Diário de Viagem (1)... tocando o paraíso...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

viagem ao fim da noite...



tenho um certo medo do acto de dormir...


































dormir,
aprisiona-me
dentro de mim
própria!!!




Qual a maior e mais dura insanidade???
A do mundo que nos envolve e enlouquece com o seu processo de auto-destruição programada???
Ou, a insanidade que existe em cada um de nós e nos desvaira nos vórtices das noites em que não temos escape para o nosso pensamento e constituímos o nosso próprio presídio de loucuras???


para a Dulce, sem porquês :)
(e a propósito do 'seu' 'Viagem ao fim da noite' título da obra de Louis-Ferdinand Céline)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

não é a felicidade...

se calhar
o que
eu
procuro
não é bem
a felicidade
NUNCA FOI
ou
então
se calhar
dou-lhe
um outro
NOME
ou
então

se calhar
o que eu
procuro
é
uma outra
coisa QUALQUER

se calhar
É
uma outra
COISA QUALQUER
se calhar
é...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

quando o fundo do mar vem respirar o sol...

Fundo do mar
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
Caminho




(sem) rumo...


e os meus passos que não te encontram...


Autoria e Agradecimento

Todos os textos e imagens são de autoria de Ana Souto de Matos.

Todos os direitos estão reservados.

São excepção as fotografias do Feto Real e do Cardo que foram cedidas pelo João Viola. As raras imagens captadas na Net com e sem identificação de autor, encontram-se devidamente referenciadas.